Sábado, 1 de Janeiro de 2005

Ecos das Ilhas, S. Miguel - Ponta Delgada, 1984.

Passamos mais um ano. Detesto as histórias repetidas, as frases feitas de improviso, mas sem sentido. A memória começa a falhar e como tal é meu dever recordar, escrever histórias e flashes para que pequenos nadas não morram.

Embora não goste de tertúlias ou esforços de cultura imprimidos, tenho que reconhecer que privei com algumas personagens que me marcaram.

Devo em sinal de reconhecimento, passar as suas palavras para este limbo, não porque eles, os que as proferiram, o quisessem, mas porque acho que alguém o tem que fazer para memória futura.

Nesta minha vida de salta-pocinhas, de eterno “cigano”, conheci um poeta popular nos Açores, homem de armas, desterrado. Era do Continente, apaixonou-se pelas Ilhas e por uma açoreana, e por lá ficaram as suas cinzas.

Para além de uma profunda e constante luta entre o dever de ficar e a vontade de partir, percorreu o mundo, esteve na Índia e na Guiné, finalmente acabou por assentar arraiais em S. Miguel.

Tinha um espírito cínico de quem nunca encontrou paz, apenas um papel militante que o mantinham preso à vida.

O seu percurso de poeta popular e de bêbado crónico começou na Índia, ainda pertença do nosso extenso Império Colonial.

O Esmeraldo, como era conhecido, fez uma comissão nessas terras do Oriente. Como todos os militares cumpriu para além do seu dever. Deveria ter feito uma estadia pelas terras dos marajás, de apenas 12 meses, mas o tempo foi passando e a guarnição que o deveria render, atrasou-se cerca de 6 meses. Depois de muitas peripécias, lá chegaram os homens que iriam substituir o batalhão do Esmeraldo. Aperaltaram-se as ruas, agalanaram-se as casas e as igrejas. Preparam-se lautos e grandiosos jantares. O Esmeraldo, sempre com um grão na asa, refastelado na cadeira, copo de vinho sempre à mão, entre donzelas, bispos e autoridades civis, viu o governador erguer–se, saudar toda a sala num discurso de ocasião e no fim propor de copo levantado:

“-…e agora nesta hora de despedida, acho que deveria se feito um verso…”

Olhou profundamente para o lugar do nosso amigo e com um trejeito, deu-lhe a palavra. O Esmeraldo não se fez rogado, levantou-se, ergueu o copo, sempre semi vazio, na opinião dele claro e de improviso rimou:

“Ormuz, Malaca e Ceilão…

Goa, Damão e Diu…

Já cá estou à 18 meses,

Prá puta que os pariu…”

Não houve relatos dos engasgos posteriores, esta despedida ficou bem marcada pela irreverência do Esmeraldo.

De castigo, foi o Esmeraldo mandado para as terras da Guiné. Descontente e sozinho o Esmeraldo, pediu à mulher que se juntasse no seu exílio forçado. O pai da sua esposa, um velho General, conhecedor da confrangedora terra e das doenças que aí grassavam, opunha-se veementemente que os dois se reunissem. Desesperado e imbuído pela sua cínica veia, depois de vários pedidos e rogos, decidiu-se em enviar um simples telegrama ao seu sogro e superior. Dizia apenas:

“Exmo. Sr. General, ou vem mulher do quadro ou avança miliciana”, a mensagem foi de imediato descodificada, a mulher do Esmeraldo levou o tempo da entrega do telegrama e da viagem de barco, a reunir-se com ele em Bissau.

Depois de vários percursos, acabou na terra da mulher, onde despachava ocasionalmente no bar, um dia de copo na mão e tendo como fundo um calendário de uma “pin-up”, mais despida do que vestida, entregaram-lhe uma punição relativa a dois mancebos que tinham sido apanhados em actos menos próprios e enquanto lia pensativo, olhava a musa enternecido e recitava:

“Que olhos, que rosto, que lábios,

Que corpo que mamas, que rabo,

Ainda há reles filhas da puta,

ca mão, na pissa dum cabo.”

Nem a adorada Natália Correia se livrou do seu cinismo militante, um dia no
Clube de Ponta Delgada, numa dessas tertúlias de intelectuais onde se liam e faziam uns versos e prosas, com a sua cigarrilha petulante, enfrentou o Esmeraldo e disse-lhe:

“- Faz versos para toda a gente, menos para mim, se for falta de inspiração, até lhe dou o mote: só tu Natália, só tu…”

O Esmeraldo olhou para a Natália, remirou-a, olhou o fumo que ela retirava da longa boquilha, que lhe fazia descair ligeiramente o lábio e rimou:

“É coisa que não me espanta,

ver hemorróidas no cu,

mas ver hemorróidas na boca,

só tu Natália, só tu…”

A Natália não gostou, o Clube inteiro desatou às gargalhadas, a tertúlia acabou aí, ninguém mais teve coragem de continuar a olhar a cara da Natália sem se rir.

O Esmeraldo era como podem ver um perito em estragar festas, e nessa sua tremenda queda para isso teve um ano em que lhe foi dado o título de inimigo público nº um de Ponta Delgada.

Manda a tradição que o Carnaval em Ponta Delgada seja passado no Coliseu da terra. Toda gente veste os melhores fatos para a folia, enfrenta rivais com bolas de parafina cheia de água e leva um lauto farnel para comer durante os intervalos do espectáculo que dura até altas horas no velhinho anfiteatro.

Nesse ano uma das cabeças de cartaz era um duo, marido e mulher que iriam brindar o público com umas valentes desgarradas. O azar bateu à porta e o membro masculino teve um ataque de tosse e ficou afónico. Entre o entrar em palco sozinha e enfrentar o público que já sapateava, ela, a outra parte da desgarrada depois de pensar um pouco e confiante na veia poética desse mesmo público, decidiu arriscar, entrou em cena e começou a cantar:

“Eu cá sou muito cristã,

mas tão grande é minha cruz,

fui casada por três vezes,

estou como fui dada à luz…”

Por entre a multidão boquiaberta, levantou-se cambaleante o Esmeraldo e de garrafa na mão retorquiu:

“Ai Jesus que Deus nos valha,

o que já vai nesta missa,

ou esta mulher nunca fode,

ou os homens não tem pissa.”

As mães escandalizadas tapavam os sacros ouvidos das filhas debutantes, gerou-se o pânico, o Coliseu esvaziou-se em minutos, deixando a virgem cantora e os guitarristas no palco, apenas acompanhados pelo Esmeraldo, que teimosamente se mantinha em pé à espera da estrofe seguinte para poder responder…

Numa das suas idas ao Nacional, café onde não são quase admitidos “contenentais”, o Esmeraldo tomava a sua bica, acompanhado pelo devido cheirinho, aqui o cheirinho era mais do que o café convenhamos. Nesse dia reparou que duas moças, já com idade de ter juízo, se riam, que cochichavam e faziam festas uma na outra, pouco complacente com estas situações, retrógrado, esperou que elas fossem à casa de banho e depois de pagar a conta deixou pendurado na chávena de café de uma delas um pequeno papel com os seguintes rabiscos:

“Mas que grande aberração,

mas que caso nunca visto,

porque comem pão com pão.

Se é tão bom pão com chouriço.”

Entre o seu espírito irreverente e a sua saúde intermitente, devido à quantidade de bebidas que ingeria, ia-se mantendo o Esmeraldo, um dia adoeceu, e antes de uma transfusão, teve ainda tempo de avisar o médico que lhe perguntava o tipo de sangue:

“- Senhor Doutor, olhe que a quantidade de sangue no meu álcool circulante é mínima…Veja lá o ano da colheita que me vai meter na veia.”

Recuperou e num dia de procissão, quando o andor do Senhor se aproximava, deu voz a todos aqueles que sentiam isolados por aquelas paragens:

“Ó Senhor do Santo Cristo,

que reinais cá nestas Ilhas,

porque não pois esta merda,

entre Lisboa e Cacilhas.”

 

In memória do Esmeraldo, e de um contador de histórias que me fizeram parecer mais leves os anos forçados de ilhéu.

publicado por McClaymore às 21:14
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2 comentários:
De Anónimo a 2 de Janeiro de 2005 às 21:10
No teu melhor, tu és um contador de estórias nato! Delicioso este retrato do Esmeraldo. Beijoslique
(http://mulher50a60.weblog.com.pt)
(mailto:lique2@sapo.pt)
De Be1@aeiou.pt a 22 de Junho de 2006 às 18:49
A estória até é engraçada .... mas diria mesmo como Açoreana de gema .... que você vê muitas novelas :)))

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