Quarta-feira, 8 de Fevereiro de 2006

Mãe, há só uma...

- O menino mais uma vez anda a roubar o leite à “chiba”…

- Mãe não fui eu foi o Zé António.

- Deixe-se de conversas, o meu filho não fazia uma coisa dessas, eu vou fazer queixa à sua Mãezinha. Peça à Laida que lhe tire o leite da cabra…

- Ela não sabe tirar… Sabe melhor assim.

- Olhe que a cabra um dia destes manda-lhe uma marrada…

- Não manda ela, já mandaram os cabritos.

Num gesto repentino afasto a melena e mostro o galo já amarelecido.

- Zé vai buscar azeite. O João tem um grande galo.

- Não é preciso, Mãe, olha vou ao Sr. Moura! Ainda me falta a broa e o presunto para ficar com o pequeno almoço completo.

- Ó menino, isso é mesmo abusar! Todos os dias a mesma coisa o que é que a sua Mãezinha vai dizer, que eu não lhe dou comida?

Nem lhe dei tempo, subi as escadas, passei a ponte para o lado de lá da eira, virei costas e pelo caneiro fui-me alojar na casa do Sr. Moura.

- D. Maria Adelaide, Ó Tia Adelaide…

- Diz Porfírio?

- O fedelho tornou-me a roubar o burro. Esse miúdo é entronchado no Diabo! Se o apanho deixo-lhe o rabo negro.

Enquanto apressadamente se baralhava no sinal da cruz.

-Rais’parta a peste do miúdo. Ó Joaozinho, venha cá…

- Diz Mãe?

Surgi sem me fazer notar nas dobras do vestido.

- Ouça lá o menino tornou a roubar o burro do Porfírio?

- Eu mãe? Eu era lá capaz de fazer uma dessas? Se calhar foram os ciganos! Eu nunca roubei o burro ao Porfírio.

- Atão não? Da última vez até o trouxe todo molhado! O pobre estava a tiritar de frio. Mais, doutra que eu saiba, o Zé Cigano é que se veio queixar que você lhe tinha roubado o cavalo…

- Achado não é roubado! Andavas tu a roubar cerejas no lameiro do Domingos e deixaste o animal sozinho! Eu pensei que se tinha perdido. Para além disso o animal até estava a precisar de um banho! Já agora quando é que tu tomas um? E o Zé Cigano estava na venda do Manel e que eu me lembre foi para casa com uma bebedeira e só deu falta dele no dia seguinte…

O Porfírio estrebuchava de raiva. Estava a ver que lhe dava uma coisinha por ali.

- Mas o menino roubou o burro ou não?

- Mãe já te disse, que não, esse mentiroso já foi ver à loja se lá tem o animal?

Começou a correr caneiro abaixo, dobrou a esquina e passado minutos voltou com um sorriso nos lábios.

- Desculpe a chatice Tia Adelaide, mas eu tinha a certeza que o burro tava no lameiro. Para além disso os burros não trancam portas.

Sacana que não ias ficar sem resposta.

- Tás a ver ó Porfírio tens um burro mais inteligente do que tu!

- O menino esteja calado!

- Ouça lá ó Tia Adelaide, mas que idade tem o mafarrico?

- Tem cinco Senhor – e numa prece com os olhos virados para o Céu – tem cinco! Vê lá se ele aos cinco já nos põe os cabelos em pé daqui a um ou dois como será?

- Eu cá não sei Mãe, mas pelo andar da carruagem, o Porfírio daqui a dois anos já não tem cabelos, a puxá-los dessa maneira…

publicado por McClaymore às 15:24
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