Quarta-feira, 4 de Janeiro de 2006

Crónicas de um Rei sem trono. (continuação X)

Capítulo II

 

Quem nunca se guiou pelas estrelas é porque nunca andou perdido.

 

A estranha sensação da viagem ainda se fazia sentir. Desembocaram todos por ordem de entrada, numa espaçosa clareira. A saída daquele passeio forçado não foi das melhores, excepto para Domart e Galomit, que pareciam habituados a utilizar estes métodos para as suas deslocações. O burro, o dono e o cavaleiro apresentavam ar de incredulidade, lentamente foram-se recompondo. A passagem por aquele vórtice deixou a sensação de terem viajado no meio de uma tempestade, onde nem sequer controlavam os sentidos.

A aterragem foi atenuada pelas ervas que cresciam descuidadas. Para além da cruz, algumas ruínas de construções antigas, ladeavam o local.

Dormat quase nem deu tempo para se aperceberem onde tinham desembocado:

- Meus amigos, vou guiá-los rapidamente por um trilho para que retomem o vosso caminho. Lamento ter que ser assim, mas já vou ter que justificar a intrusão de estranhos nas nossas terras e ainda explicar a vossa viagem. As leis dos antigos são para se cumprir.

- Teus superiores? - perguntou o cavaleiro – Julgava que eram só vocês que habitavam estes bosques!

- Senhor – continuou Dormat – não me obrigues a falar sobre o que não posso. Eles estão a observar os nossos passos neste momento e é melhor que a vossa viagem prossiga…

O cavaleiro e o bufarinheiro olharam em volta a tentar vislumbrar mais alguma presença que ainda não se tivesse manifestado.

- Não vale a pena! Eles não se deixam ver no entanto vêem-nos – explicou Galomit com um pouco de temor na voz.

- Estranhos hábitos, não quero interferir nos vossos assuntos, mas vocês limitaram-se a salvar-nos a vida! Isso é digno de louvor e ficaremos agradecidos por isso para o resto das nossas vidas. Podemos atestar isso junto deles se quiserdes.

- Agradecemos, eu e Galomit, agradecemos a vossa defesa, mas por agora pedimos apenas que nos sigam. É mais seguro tanto para nós como para vós. E é tão estranho como o hábito que tendes de acariciar essa adaga que escondeis debaixo da capa…

Sem dar tempo para réplicas, indicou um trilho que acabava bem junto das árvores e começou apressadamente a segui-lo.

Tomaram esse caminho e entraram do bosque quase cerrado. Apenas uma pessoa que conhecesse bem aquelas paragens se poderia orientar no meio daquele labirinto onde mal chegava claridade.

Foram rodopiando como se estivessem perdidos, sempre em fila e quando deram conta estavam mesmo junto à orla daquele imenso matagal.

- Eu sei que não é a melhor maneira de os deixarmos, mas as circunstâncias assim o exigem. Os meus respeitos a vós cavaleiro e a ti bom homem. Obrigado pela refeição que nos proporcionaste. Quanto à tua adaga não leves a mal ter reparado nela, os símbolos que cobrem a sua bainha são nossos conhecidos. Decerteza que nos encontraremos no futuro. Ide, o caminho é junto aqueles cedros que estão além bem juntos – apontando bem para o limite do horizonte.

Quando se aperceberam do local onde teriam que se dirigir e se voltaram para trás, o cavaleiro e o bufarinheiro deram conta que os dois homens que os haviam guiado até aí se haviam esfumado.

Ouviram apenas um riso bem baixo, longínquo e o som das árvores a entrelaçar os ramos.

O cavaleiro e Clarence, olharam-se nos olhos numa pergunta sem resposta.

- Bem cavaleiro, estamos a ficar atrasados. O melhor é mesmo por outra vez as nossas pernas no caminho certo! O bufarinheiro pegou na corda que prendia o burro e começou a tomar a direcção que lhes haviam indicado.

- Estranha gente esta, Clarence.

- Porque Senhor? Só temos que agradecer os seus bons préstimos. Neste momento estávamos a dar de comer aos corvos e aos abutres. Dizem que aqueles bárbaros não tem pejo nenhum em tirar vidas humanas. Eu sei que os vossos costumes são outros, mas por aqui não costumávamos questionar as vontades destes bons homens.

Num trejeito de encolher de ombros, que acabava a discussão, McClaymore começou a seguir o burro e o dono.

publicado por McClaymore às 15:24
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