Segunda-feira, 5 de Setembro de 2005

O Provedor já não mora aqui…

“Meus caros amigos, por razões de força maior (melhor salário, direito a férias e outras benesses sociais), fui obrigado a mudar de poiso, a partir deste momento, vou abrilhantar o espaço Teoria da Conspiração, gratos por toda a atenção que me dispensaram, podem continuar a enviar as vossas cartas para esse local, serão respondidas certamente com o profissionalismo a que sempre vos habituei”

Ass: “o Provedor dos Leitores”

 

“Lamento a saída extemporânea deste efémero colaborador, este blog estava a transformar-se num pasquim político e entrava em conflito com as directrizes do presidente e do editor (neste caso de “moi même”, tipo dois em um), o dito provedor também já não aguentava a pressão constante e já nem conseguia abrir as cartas que lhe eram enviadas. Por esses motivos alegou razões do foro mental e ainda justa causa para se por na alheta. Consultados os departamentos jurídicos e de gestão de pessoal, não se vislumbraram motivos suficientes para o manter no posto de trabalho. Para além disso o autor do blog (três em um), já o havia ameaçado fisicamente, pelo que o ambiente nesta casa se estava nitidamente a detiorar.”

Ass: McClaymore  

publicado por McClaymore às 16:43
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Sexta-feira, 2 de Setembro de 2005

Crónicas de um Rei sem trono. (continuação VI)

Capítulo I

 

As sombras do passado perseguem-nos até ao fim dos nossos dias.

 

O cavaleiro dirigiu-se lentamente para a fonte, a pedra era diferente da dos restantes edifícios. A sua alvura resplandecia e quase cegava em contraste com o tom ocre dos muros e das paredes. Encostado à ombreira da cornija da entrada do edifício onde iam tomar as refeições, Sir McClaymore, perscrutou o largo pátio para lá da fonte, deteve os olhos de vez em quando nos muretes, nas cimalhas e nos adobes carcomidos que se viam pelas frestas das janelas desgarradas. Aquele lugar não lhe agradava, era demasiado dentro dos muros, bem fundo e sem qualquer lugar de fuga. No entanto, conjecturou que dificilmente alguém se atreveria a entrar afoitamente dentro daquele labirinto, só se o conhece bem.

Dirigiu-se à fonte, desapertou um lenço negro que lhe envolvia o pescoço, molhou-o no tanque com movimentos rápidos, depois de o ter comprimido para lhe tirar a água em excesso, limpou cuidadosamente a fronte e o pescoço, desbotou o gibão em pele, primeiro os botões depois as fivelas laterais. Mirou-se nas águas que reflectiam a sua imagem, de vez em quando desfocada pelo caudal intermitente da fonte, a barba e os cabelos hirsutos, foram depois repassados também descuidadamente apenas para retirar algum pó do caminho que precisava urgentemente de ser limpo. Imaginou como seria bom tomar um bom banho para retirar a restante sujidade, mas isso teria que ficar para depois.

Preso nestes pensamentos foi acordado pelo seu companheiro que trazia uma braçada de madeiras velhas de portadas, soalhos ou janelas e alguns ramos e ervas secas.

- Como é que faziam os druidas desta casa para cozinharem e se aquecerem? Uma das coisas em que reparei, Clarence, é que não existem quaisquer árvores ou arbustos que sejam dignos de ser queimados dentro desta paredes.

- Pois não. Existiam algumas, mas foram destruídas pela seca e pelos homens que precisavam de queimar algumas coisas, mas eram pequenas e serviam apenas para dar alguma beleza ao lugar. Os monges iam buscar a lenha que queriam à mata em frente.

- Mas tu não disseste que era proibido entrar nela?

- Para nós mortais, senhor, os druidas entravam nela sempre que precisavam, inclusive diz-se que algumas das cerimónias e sacrifícios aos deuses eram lá feitos. Apenas eles se atreviam a entrar lá, segundo as leis deles se alguém fosse por eles apanhado a violar essa proibição, era banido e esconjurado, e podia mesmo receber um castigo exemplar. Nunca me lembro de tal, mas contava-se a história de um rei que um dia lá tentou entrar e que nunca mais voltou, o meu pai sabia o nome desse rei, mas eu já não sei essa parte da história. Talvez na minha aldeia haja ainda algum velho que se lembre.

Enquanto falava, Clarence foi-se aproximando de uma parede, deitou sem parcimónias o que levava nos braços e metodicamente de umas acendalhas que trazia numa bolsa a tiracolo, começou a fazer pequenas faíscas sobre a erva seca que tinha arrumado. Aos poucos e com um pouco de fumo começaram a surgir pequenas labaredas que ele com um sopro tratava de animar, quando elas se expandiram, pegou com ambas as mãos nesse montinho de erva e colocou-o debaixo das madeiras que tinha empilhado. Ateou-se lentamente uma pequena fogueira, quase sem fumo, a madeira estava bem seca por sinal. Depois, rebuscou nas tralhas que tinha retirado do burro e pegou num farnel embrulhado num trapo branco e numa caixa de madeira gordurosa. Do pano sacou um bom naco de pão, de côdea bem tostada e da caixa um naco de presunto avermelhado. Limpou o presunto do sal, pousou-o juntamente com o pão sobre o trapo, numa laje, que fazia de mesa. Depois desembaraçou-se do atilho do odre sobre o ombro e colocou-o ao lado das viandas.

- Eu sei que é pouca coisa, mas é partilhado com gratidão Senhor, pegai na vossa adaga e fazei as honras. Podeis repassar umas fatias deste presunto pelas brasas, ficará mais saboroso e libertará um pouco da gordura.

- Obrigado amigo, mas declino a primazia, divide tu a comida, a minha adaga tem outros fins, terás que utilizar a tua faca.

As sombras que caíram com aquele olhar demonstraram bem a pouca vontade daquela lâmina de se separar da sua bainha. A conversa esmoreceu e o bufarinheiro, começou a dividir rapidamente a refeição sem sequer levantar os olhos.

Cortou uns bons nacos de pão e sobre ele, umas fatias de presunto que metodicamente colocava no pano estendido. Deixou que o seu convidado se servisse.

O cavaleiro não se fez rogado, retirou um naco de pão coberto por um bom bife de presunto, começou logo a comê-lo, o bufarinheiro num gesto amável, entregou o odre já aberto ao cavaleiro, que sem cerimónias o levou à boca que depois de um ou dois goles o devolveu. Passou a mão pela boca, instintivamente para limpar um pingo mais teimoso.

- Bom néctar Clarence, tinhas razão, reconforta o espírito e vai ter o condão de nos animar para prosseguirmos a nossa viagem.

publicado por McClaymore às 14:47
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Crónicas de um Rei sem trono. (continuação V)

Capítulo I

 

Os Deuses habitam no coração dos homens enquanto estes se lembrarem que precisam Deles…

 

Entraram num edifício enorme que certamente era o centro daquele enorme templo. As paredes conservavam as cornijas e aqui e ali pequenas inscrições. A abobada, aqui em pedra, recortava sombras nos pilares por aberturas altas e arredondadas, acentuava as gárgulas e imprimiam uma atmosfera de reflexão. Bem no centro uma ara de pedra tosca e fria, mostravam que ali se reuniam pessoas para cerimónias e ritos, se o local não estivesse tão frio e sem vivalma, poderíamos facilmente imaginar uma centena de vultos compenetrados a tentar salvar almas e a pedir as benesses dos deuses. Mais atrás, encostado às grossas paredes umas quantas cruzes em pedra iguais à que tinham encontrado junto à encruzilhada da ponte. Aqui o tempo parecia que não tinha passado por elas as inscrições e os símbolos estavam decalcados pelo cinzel, como se tivessem sido acabadas de esculpir e não deixavam quaisquer dúvidas, se é que restassem, na santidade do lugar.

Num canto, sem cerimónia viam-se algumas cinzas de fogueiras mal apagadas e algum lixo, que demonstrava que aquele lugar já havia servido mais do que uma vez para refeições e paragens de viajantes que ainda se a aventuravam por aquelas terras.

- Chega cá “Pedro” – chamou o bufarinheiro – deixa que e alivie da carga, depois podes ir até lá fora, petiscar umas quantas ervas, à falta de melhor jardineiro…

O burro sentindo que o iam aliviar do fardo, manteve-se firma enquanto as mãos rápidas e experientes do homem, desfaziam os nós das cordas, tiravam as mercadorias e desembaraçavam destramente a cilha. Depois de tirá-la, retirou ainda a corda do cabresto e com uma palmada sólida empurrou o asno pela portada, para o largo pátio.

O asno cheio de alívio desatou às cangochas e aos coices, rodopiou de alegria e espojou-se, repisando a erva e coçando-se com alegria. Mais calmo e pacificado por esta liberdade precária, começou a pastar calmamente, depois de passar junto à fonte e beber fugazmente no tanque onde a água ia desaguar.

O dono não deixou de esboçar um sorriso ténue e imaginar que o pequeno quadrúpede lhe fazia lembrar os cavalos selvagens que de vez em quando apareciam a galopar no horizonte das suas viagens.

A pergunta do cavaleiro trouxe rapidamente Clarence para a realidade:

- A água é boa?

A resposta do mercador demonstrou alguma preocupação, depois, de pensar uns segundos respondeu:

- Dificilmente alguém a consegue envenenar a fonte, a sua água provem de uma mina, bem profunda e ninguém conhece onde ela fica, e se alguém o sabia, seriam os druidas que aqui habitavam e esse segredo, morreu com eles. Podiam outro sim, envenenar o tanque. Mas julgo que não o fizeram, a estas horas, o meu pobre burro já cá não estava para o contar.

- Espero bem que não bom homem. Lamento ter-te dado essa preocupação, mas nestes tempos os incautos infelizmente vivem muito pouco tempo.

- Compreendo, mas pelos vistos ainda ninguém se lembrou de tal barbaridade, ter que começar a ter mais cuidado para as próximas vezes que vier por este lados. Agora se não vos importardes de partilhar comigo a minha modesta comida e a minha bebida, convido-vos para uma refeição…

- Pensava que não perguntavas, morro de fome meu amigo, qualquer comida e bebida serão bem vindas…

- Vou começar à procura de ervas secas e alguma madeira velha que vai caindo por aí dos antigos sobrados e das empenas que ainda restam, demoro pouco, enquanto isso aproveitai para vos refrescardes um pouco Sir McClaymore.

publicado por McClaymore às 14:36
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Crónicas de um Rei sem trono. (continuação IV)

Capítulo I

 

Outros são como fantasmas a vaguear na imensidão do limbo, a percorrer espaço e tempo à procura de um infinito que nunca alcançarão…

 

Os dois homens e os animais apressaram o passo, o sol agora mais quente, fazia correr gotas pelas faces dos viajantes e a pele do burro brilhava com o esforço. As ruínas, magestáticas, enormes pedras decalcadas e amontoadas pelos homens, imprimiam um tom de solenidade no meio do descampado que se estendia ao longe, entrecortado aqui e ali por pequenas arvores não maiores que um homem. À direita, a contrastar com esse semi deserto, um aglomerado cerrado de árvores velhas estendia o seu perímetro bem demarcado, como se de um forte se tratasse.

- Clarence, aquele mato ali não será mais conveniente para o nosso descanso, pelo menos será mais difícil de sermos surpreendidos ou encurralados do que dentro de quatro paredes.

O bufarinheiro empalideceu, murmurou uma prece surda e um pouco incomodado tartamudeou sussurrante:

- Senhor, não me é permitido frequentar esse bosque. Já no tempo dos que visitavam este lugar lhe era vedado entrar nos segredos desse denso matagal…

Antes que o cavaleiro tivesse tempo sequer de esboçar qualquer pergunta, o homem ainda trémulo informou:

- Os druidas proibiram qualquer homem de atravessar para além do perímetro de terra onde ele começa. Dizem que está protegido por magia muito forte e por estranhas criaturas que não temem ninguém. O meu velho pai contou-me que alguns mais afoitos o quiseram fazer e que nunca mais foram vistos. Eu não quero sofrer da mesma sorte e aconselho que façais o mesmo…

- Caro companheiro de viagem, forçado, mas mesmo assim meu companheiro. Não duvido das tuas palavras e não leves a mal a minha pergunta, apenas a curiosidade me levou a fazê-la. Mas deixemos o bosque em paz e os teus temores e alcancemos as ruínas, a minha fome é neste momento, bem pior do que os monstros que habitam aquelas árvores…

Dirigiram-se apressados para as sombras dos edifícios, o caminho aqui tinha sido tratado, e se bem que não estivesse habitado, por entre as perseverantes ervas que já enxameavam o local, estas dificilmente se desenvolviam no empedrado bem polido e bem assente que agora começavam a percorrer.

O musgo e algumas daninhas parasitas já começavam a tomar conta do lugar. As estruturas em madeira que sustentavam os telhados, que já não estavam lá, estavam carcomidas pelo sol e pela água da chuva.

Passaram uma estrutura enorme e sólida que se abria para um pátio interior. Os edifícios eram grandes e notava-se o cuidado na sua construção, fora feitas para enganar o tempo e lembrar aos homens a sua curta vida por entre estas vestutas paredes.

Aqui e ali ouviam-se os trinados das aves e os seus voos rápidos para apanhar algum insecto mais incauto.

O tapete de ervas não abafava o som ritmado do burro que rapidamente começou a percorrer aquelas lajes como se conhecesse o caminho de cor. Os dois homens acompanharam-no, ladeando paredes e passando por entre arcadas e pilares que separavam edifícios e algumas praças menores. De tempos a tempos uma aberura ainda com as portas de madeira, velhas, entreabertas e descaídas, davam um ar fantasmagórico e surreal aos espaços que percorriam, era como se ainda se sentisse o respirar dos monges que habitaram aquelas casas. O chiar das dos gonzos enferrujados das portadas, acentuava o tom lúgubre e imaginário daquelas pedras.

- O meu “Pedro”, já conhece estes lugares como ninguém. Quando ele parar, vou aliviá-lo da carga. Depois poderemos descansar uns minutos, beber e comer um pouco para retemperarmos as nossas forças. Ele sabe que mais no interior há uma fonte de água fresca. Será por aí que ficaremos, é abrigado e um local onde dificilmente seremos surpreendidos.

publicado por McClaymore às 14:01
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