Segunda-feira, 13 de Setembro de 2004

“ab hoc et ab hac.”

latim ”Disto e desta. Discorrer alguém sobre o que não entende.”


 

O termo hermenêutica provém do verbo grego herméneuein e significa declarar, anunciar, interpretar ou esclarecer e, por último, traduzir. Significa que alguma coisa é "tornada compreensível" ou "levada à compreensão". Não há certeza filológica, mas só probabilidade de que o termo derive de Hermes, o mensageiro dos deuses, a quem se atribui a origem da linguagem e da escrita. O certo é que já exprime a compreensão e a exposição de uma sentença dos deuses o qual precisa de uma interpretação para ser apreendido correctamente.

Estranhamos sempre todo o sentido da vida. Questionamos com fervor, cada loquaz momento em que nos defrontamos com alguma dificuldade. Tentamos sempre que os outros transportem um pouco da nossa culpa, é mais fácil do que suportá-la sozinhos.

Quando nos deparamos com alguma dificuldade, atribuímos sempre a terceiros os escolhos que nos barram os caminhos da glória ou da perdição.

Gostamos de jogar, mas jogar pelo seguro, distribuímos as cartas, guardando sempre as melhores para nós. Acreditamos em espíritos desde o homem das cavernas, acreditamos em política, nos políticos, pagamos-lhe para eles terem ideias, damos-lhes cargos e honrarias, suportamos as suas decisões sem revolta, instituímos nos tempos que correm um novo tipo de “Idade Média”, mas mais civilizada. Esquecemos os valores básicos de toda a nossa existência. Deixamos de acreditar em impossíveis, mas quando olhamos para o lado e vimos a miséria, a falta de cultura, a falta de paixão em toda a humanidade e não nos perguntamos a nós próprios qual o nosso papel, qual o sentido para onde caminhamos. Rotulamos novos conceitos, novas ideologias, novas doenças, novas ciências e até novas religiões. Transformamos o mundo num autêntico caldeirão de demagogia, sustentada por um capitalismo feroz, uma ânsia de viver à custa de resultados infinitos e de um usurpar de identidades. Fenecemos lentamente à procura de uma eternidade que tarda, e de que como seres humanos sabemos que é impossível de alcançar. Morremos num obscurantismo atroz a discutir notícias e factos que não interessam a ninguém, mas que nos afectam dia a dia. Fazemos filosofia barata na esperança que de algum modo alguém nos leia, que alguém nos imprima alguma luz. Essa filosofia que enaltece as almas, que nos obriga a pensar, já não é, felizmente, apanágio e redil de alguns iluminados, propagou-se, tornou-se propriedade “freeware”. Defendemos sempre a propriedade material, mas transformamos a propriedade intelectual num monumento ao plágio. Acabamos de criar um monstro, não aceitamos a critica como um simples acto de recriar e outros criticam só por criticar. Muitos, e não são tão poucos como isso, já se julgam Deus ou pior ainda pegam no telefone e pensam que estão a falar com Ele.

Enlouquecemos lentamente e transmitimos a nossa loucura como um vírus, esquecemos que estamos irremediavelmente perdidos, nesta nossa ânsia de agradar e sermos imortais.

Seria mais simples reconhecer que somos um pontinho no universo, que não interessamos a ninguém e que as nossas palavras, se alguém as ler, terão o efeito de uma gota de chuva no meio de um oceano batido por um furacão.

Ao defendermos as nossas ideias, estamos de forma a tentar que os outros pensem o mesmo ou as sigam. Não aprendemos com os erros da história. É verdade que nem sempre aquilo que nos transmitem é a realidade. Nunca devemos esquecer que essa “verdade”, essa parte da história é sempre escrita pelos vencedores. Tentamos responder às nossas necessidades com mais necessidades. Não havendo limites, os fortes impõem aos mais fracos, independentemente da sua identidade, ou dos meios utilizados, a sua vontade. Podemos sempre falar em casos extremos, vimos isso acontecer em pleno século XX, continuam por este século fora. Quando pararmos, talvez seja tarde demais, eu já não acredito na redenção, simplesmente acredito, espero que haja alguns com eu, que o simples facto de transmitirmos alguns valores aos nossos filhos e àqueles que nos lerem, que talvez consigamos sobreviver, talvez com um bocado de boa vontade e de fé, alguns de nós renasçam e continuem a saga que começamos à milhões de anos atrás, não como macacos, mas sim como simples seres humanos.

 


PS: Perdoem-me os meus amigos seguidores de Merleau-Ponty e aos defensores da Fenomenologia como extensão da Hermenêutica. Continuo a achar que as leis de Murphy são a melhor maneira de combater os Darth Vader do Universo.

publicado por McClaymore às 15:38
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