Sexta-feira, 11 de Novembro de 2005

Crónicas de um Rei sem trono. (continuação VIII)

Capítulo I

 

Um Rei perdido, cheio de fome, entrou na casa de um pobre moleiro, este ofereceu ao Rei pão com mel para se alimentar. Depositou em frente ao Rei um pequeno cesto de pão acabado de cozer. O Rei faminto comeu todo o pão que estava à sua frente. Depois de ter mitigado a sua fome perguntou ao moleiro:

“Onde está o mel?”.

O homem sabiamente respondeu:

“Saiba Vossa Senhoria que o mel era a vossa fome que acompanhava o pão.”

 

De um conto lido em qualquer lado.

 

 

Ao entrarem no edifício, o cavaleiro e Clarence sobressaltaram-se com as palavras desconhecidas que os seus dois esfomeados seguidores, pronunciaram numa língua estranha. Lentamente o bufarinheiro, voltou-se e para espanto de McClaymore, respeitosamente, baixou ligeiramente a cabeça e disse em direcção a Galomit e Dormat:

-Desculpai a minha falta, mas sereis sempre bem vindos à minha casa e a minha modesta refeição, reconforte os vossos estômagos!

O dobrar das sobrancelhas do cavaleiro, seguiu-se um silêncio embaraçoso, cortado prontamente pela voz de Dormat:

- Pensei que nos tivessem convidado para uma refeição?

- Perdoai a minha falta de cortesia – disse numa voz de reverência o dono do “Pedro” – Aproximai-vos por favor enquanto eu corto este pão e uns bocados de presunto…

Enquanto preparava as vitualhas, o bufarinheiro foi-se aproximado do cavaleiro e numa voz baixa quase sussurrante disse:

- São antigos ocupantes destas paredes! Compreendi-o quando eles à entrada fizeram uma pequena prece na língua dos antigos!

- Mas será possível? - perguntou o cavaleiro – Não disseste que isto está abandonado?

- Já sei, já sei! - disse Dormat, enquanto ensaiava um trejeito mal conseguido – Quem somos nós? O que fazemos aqui?

Debaixo ainda do olhar inquisidor dos outros dois, enquanto sem cerimónias começava por tirar um grande naco de pão e de presunto, secundado por Galomit, o homem continuou:

- Somos apenas dois pobres seguidores dos deuses que através das nossas rezas e oferendas habitavam estes lugares! Depois fomos sucumbindo à velhice, os homens deixaram de acreditar, de ter fé e aos poucos os nossos companheiros desapareceram. Fomos os últimos a envergar as vestes brancas, mas também nós – enquanto enjeitava um suspiro amargo – até nós estamos condenados a desaparecer e connosco os últimos que poderão dar continuidade à nossa crença.

- E onde vos escondeis? Perguntou Clarence.

- Por aí, por ali! Respondeu Dormat.

- De vez em quando no bosque em frente – Galomit entremeou com um engasgo do pão que abocanhava enquanto falava.

- Mas, mas…-gaguejou o bufarinheiro – não é proibido?

- Pois é!

Afirmou o desbocado, logo de imediato corrigido pelo seu companheiro:

- Na verdade bom homem, era proibido para os leigos, mas a nós sempre foi permitido. Para além disso onde nos esconderíamos nós dos perigos que atormentam estas terras? Sim porque infelizmente até já aqui chegaram os ataques das hordas. Há bem poucos dias passaram por aqui e invadiram momentaneamente estas ruínas.

- E ainda param por aqui? Perguntou McClaymore.

- Não sabemos, no entanto nada é seguro, aconselho-vos a deixar estes sítios o mais depressa possível. Eu e o meu companheiro faremos o mesmo mal acabemos de festejar com a vossa comida o nosso encontro.

Galomit empanturrava-se com um bocado de presunto enquanto abanava auiescente com a cabeça.

O silêncio que se abateu, era desconfortante, rapidamente, cada um ensombrado pelos seus temores pensava unicamente em deixar aquele lugar propício a emboscadas.

Sem cerimónias, o bufarinheiro foi buscar o atarantado burro que ainda trazia umas ervas presas aos beiços e asperamente começou a emparelhar o burro e a carregá-lo, debaixo dos olhares dos outros que nem tiveram tempo para o ajudarem. Em uníssono, como se estivessem todos a pensar o mesmo, os quatros dirigiram-se para o pátio onde a fonte brotava. Refrescaram-se, quase sem estugarem os seus passos e começaram a percorrer o caminho que os levaria à saída.

O burro sempre à frente, conhecedor daqueles terrenos, parecia compreender a apreensão dos homens que o seguiam eficazmente.

Aproximaram-se do largo portão da entrada, que desembocava na estrada que os levaria para os seus destinos.

Em frente foram-se destacando as primeiras árvores, velhos castanheiros e zimbros, entremeados aqui e ali por algumas espécies pouco conhecidas. Antigas, seculares como se fossem sentinelas que nunca abandonaram o seu posto. Hirsutas, selvagens que tinham crescido com o propósito conseguido de esconder dos olhos dos homens, segredos bem guardados. Alguns bem mais antigos do que elas.

Quando se aproximaram um pouco mais, via-se que o caminho que as bordejava, seguia em direcção ao infinito, ao semi descampado que levaria o cavaleiro e Clarence até à pequena aldeia que seria o seu destino.

De repente ao longe, sem aviso, começaram a desenhar-se algumas figuras que aumentavam de tamanho enquanto se aproximavam.

O burro, estugou o passo ao pressentir o perigo, o cavaleiro e o bufarinheiro quase em simultâneo, formularam a mesma pergunta, a voz de Clarence tolhida pelo medo morreu-lhe na garganta, apenas McClaymore se fez ouvir:

- Estamos perdidos, sem armas e montadas, dificilmente conseguiremos escapar daqueles que se aproximam. Dizei-nos bons homens, não há outro caminho ou esconderijo por onde poderemos furtar-nos a este encontro?

publicado por McClaymore às 00:11
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