Sábado, 10 de Julho de 2004

Auto do Inferno.

Depois da vingança, a bonança, mas foi por pouco tempo, para além disso a moda pegara, o Professor de português passou a ser carinhosamente tratado por “Sr. Padre”, acicatando ainda mais, o ódio de estimação que me nutria.

Para agravar mais a minha miséria, deslocou a Isabel e as mamas dela para outra companhia e deu-me como colega de carteira a Felizbela. Eu primeiro nem queria acreditar, para além de me retirar de tão farta companheira, dava-me uma, de que nem o nome vinha no dicionário. E lá foi a Isabel fazer companhia ao Emídio.

Mas podem acreditar, o nome dela era mesmo aquele, verifiquei duas vezes no Bilhete de Identidade da rapariga.

Esse nome não lhe fazia justiça, era feliz sem dúvida, agora de bela não tinha nada, gorda, baixa e entroncada, olhos escuros encimados por uma cabeleira encarapinhada, que ela de certeza tinha dificuldade em pentear, nariz abolachado, entrecortado aqui e ali por uns pigmentos pretos e horripilantes. Bigode enorme, nunca lhe tinham explicado as vantagens da depilação do buço, as pernas grossas, eram mais musculadas que as minhas, e para rematar, vestia debaixo das saias travadas, uma cinta justa, que lhe comprimia as gorduras fartas e as fazia transbordar nos fundos das camisas, resumindo um horror.

Perdi o Paraíso e passei para o Inferno, o Gil que me perdoe, mas durante o auto dele comecei a recitar uma pequena estrofe que li num livro velho lá de casa e que era atribuído ao Bocage, homem inteligente que num dia em que passou pelo que eu estava a passar, rimou:

“Feia, feia, feia, feia,

Feia, feia e continua,

Não há cara neste mundo,

Tão feia como a tua.”

Azar outra vez, aquele professor tinha ouvidos de tísico, chegou-se ao pé de mim e perguntou-me:

“Presumo também que esse lindo verso não faz parte do nosso Auto, pois não?”

“Não, é do Bocage…”

E indicou-me a porta da rua. Eu aproveitei, para o irritar ainda mais, ao despedir-me com um sorriso e um:

“Boa tarde, Sr. Padre? Já agora conhece aquela do Bocage…”

Sem lhe dar tempo de replicar, recitei para a turma inteira:

“Casou-se um bonzo da China,

Com uma mulher feiticeira,

Nasceram três irmãos gémeos,

Um Padre, um Burro e uma Freira…

Nesse caso ó Tolentino,

Deixa o mano e

Vai para a mana,

Pois sabe doutra maneira.”

Risada geral.

Fui convocado de novo ao reitor, desta vez ele não foi tão brando, especialmente quando tive que recitar apenas para ele e para o Professor o último poema.

“Como sabe isto é um Colégio de Padres, como tal exigimos algum decoro, próxima expulsão e vai mais cedo para casa, sem acabar o período”

Deu-me ainda como pena complementar, uns dias sem me puder deslocar à cidade, a pedido do Professor, o homem tinha ficado traumatizado com o nosso anterior encontro no café.

Decididamente também não gostavam do Bocage.

 

P.S.: Desculpa José Maria, da minha parte faço um esforço enorme para te divulgar, mas estes incultos…   

publicado por McClaymore às 21:01
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