Sexta-feira, 4 de Novembro de 2005

Crónicas de um Rei sem trono. (continuação VII)

You never try to take the happiness, always to find it in the hell!

The Black List of The Great Wizard.

 

Capítulo I 

 

De repente sem aviso, começaram a ecoar vozes no vasto pátio, sem tempo de se esconderem ou o burro que pacatamente pastava entre as enormes paredes do amplo átrio.

- Eu bem te dizia - ressoava a voz - temos aqui comida para mais de um mês!

- Mas o burro deve ter dono! – dizia a outra voz.

- Como tem dono? Quem é que se atrevia a deixar aqui esta comida toda?

O cavaleiro e o bufarinheiro levantaram-se rapidamente, mas nem tiveram tempo de se aproximarem da saída, quando ouviram por entre interjeições de raiva e alguns impropérios, o burro a zurrar afincadamente.

Como um raio, transpuseram a ogiva que dava para o pátio e a cena com que se depararam era no mínimo caricata: dois vultos com as roupas rasgadas, que antigamente deveriam ter sido brancas, ou perto disso, jogavam às escondidas com o pobre “Pedro”, que os perseguia à volta da fonte que se encontrava no centro.

As vozes perdidas no fôlego da perseguição, apenas se interpunham com alguns esgares e caretas de puro medo, descompassadas pelo resfolgar do burro.

Este, mostrava os dentes como se fosse um leão, enquanto ensaiava alguns coices no ar. As duas figuras acabaram por ser literalmente empurradas para o meio tanque que rodeava a fonte, ferozmente guardadas pelo quadrúpede.

O cavaleiro não pode deixar de soltar um sonoro riso ao apreciar o quadro, o dono do burro, preocupadíssimo com a saúde do asno, correu precipitadamente para o animal que não deixava sair as duas tristes e molhadas figuras da água.

Ao sentir que Clarence se aproximava, o burro, baixou as orelhas em sinal de submissão e gratidão, mas sem tirar os olhos dos intrusos e ao mesmo tempo que soprava um zurrar triunfal.

- Bons homens, tirai essa besta da nossa presença! Esse animal tentou comer-nos…

A voz de raiva do dono do burro deixava transparecer toda a sua vontade de dar uma lição, aqueles dois que lhe tentaram roubar o companheiro.

Afagou carinhosamente o animal que de imediato se acalmou, o cavaleiro ainda a esboçar um sorriso nos lábios, aproximou-se também, lentamente da fonte.

Os dois tratantes, transidos de medo e ensopados até aos ossos mantinham-se firmemente lá dentro, sem quaisquer vontade de enfrentar a fúria do burro ou a do dono.

O seu medo ainda aumentou mais, ao repararem a figura tétrica do cavaleiro. No entanto não intentaram qualquer fuga, preferiram, trémulos, continuar com a água acima dos joelhos.

- Vão ter que explicar muita coisa! A revolta do bufarinheiro era bem patente, escolheu bem o ritmo das palavras e o semblante para as acompanhar, o tom era verdadeiramente ameaçador.

- Tendes razão – retorquiu um dos esfarrapados – Nos apenas queríamos comer o vosso burro…

- Bem na verdade – retorquiu o outro – o que o estúpido do meu companheiro queria dizer, era que nós não o queríamos comer.

- Não? Mas eu pensava que…

O resto foi literalmente abafado pelo segundo, que de imediato, temendo a confissão apressada do seu sequaz, se apressou a tapar-lhe a boca com uma das mãos, para que não aumentasse a animosidade do bufarinheiro ou a do cavaleiro.

- Para ser franco – continuou -  nós apenas queríamos apanhar o burro para fugirmos o mais rapidamente deste lugar…

- Decidam-se! Retorquiu o bufarinheiro. Afinal queriam ou não comer o meu “Pedro”? Enquanto brandia nas mãos uma vara grossa apanhada ao acaso no chão, demonstrando uma vontade inabalável de castigar os dois intrusos.

O olhar de súplica que levaram ao cavaleiro, fez com que este interviesse. Agarrou fortemente o ombro do bufarinheiro e cochichou leves palavras no seu ouvido.

Clarence, mostrando um ar inconformado, baixou a guarda e num súbito lampejo de boa vontade convidou:

- Afinal têm fome ou não? É que se têm fome, ainda tenho ali umas migalhas do meu pão para repartir com “ladrões de burros”…

E num tom sibilino continuou:

- Nos velhos tempos só o pensamento de roubarem uma montada era pago com a morte, fosse ela qual fosse! Mas estes tempos já não são o que eram infelizmente… Além disso – continuou com prazer, virando-se para Sir McClaymore, enquanto piscava levemente o olho direito, num sinal de cumplicidade – não vejo nenhuma árvore que aguentasse o peso destes dois pendurados numa corda…

O esgar de puro prazer que tinham nos lábios com a oferta de comida, morreu, e num gesto instintivo, as duas cómicas figuras, plantadas no meio da fonte, levaram ambos as mãos aos seus esguios pescoços.

Lentamente e com a dignidade possível saíram da fonte, pelo lado oposto ao do burro, que ainda desconfiado, os observava.

Deslocaram-se até junto de Clarence e do cavaleiro e numa vénia teatral, o que parecia o chefe, apresentou-se:

- Dormat e Galomit – apontando para o seu companheiro – ao vosso inteiro dispor, cavalheiros…

O cavaleiro ainda sorridente observava com atenção os dois personagens que pareciam tirados de um baú velho e bafiento.

O Que se intitulou de Dormat, mais alto que o companheiro, um pouco mais bem nutrido, apresentava umas rugas bem marcadas e umas cãs, que encimavam uma cabeça com um tamanho maior que o habitual. Debaixo daqueles trapos, deixava ainda ver umas pernas secas e pouco dadas a corridas, o outro a quem o companheiro chamou de Galomit, resplandecia-lhe uma nobre careca que ele tentava sem sucesso disfarçar, mais magro, enfiava-se dentro da túnica como se esta nunca lhe tivesse servido.

- Bem Dormat e Galomit, acompanhem-nos até ao edifício, Clarence vai tentar arranjar qualquer coisa para lhes matar a fome. O meu nome é McClaymore o do meu companheiro, já o sabem.

O cavaleiro e o bufarinheiro, seguidos dos dois andrajosos, dirigiram-se para a porta do templo. O burro, mais calmo e sem entender aquele estranho comportamento dos humanos, retirou-se outra vez para o meio das ervas que continuou lestamente a degustar.

publicado por McClaymore às 12:30
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1 comentário:
De Anónimo a 10 de Novembro de 2005 às 10:09
Já me tornei "companheira de viagem" de Clarence e MacClaymore!!! beijinhos :)tartaruga
(http://aexplanada.blogs.sapo.pt)
(mailto:teresafilipa@sapo.pt)

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