Sexta-feira, 2 de Julho de 2004

Cromos.

Todos têm tido dias felizes, o gato que lambe descaradamente as patas depois de uma pequena incursão ao quintal da vizinha, onde afoitamente experimentou apanhar um pombo, ainda resmungante no beiral da janela do lado.

A criada que apanha cada peça de roupa com um cuidado aparente, mas a suspirar pelo namorado, que ao cair da noite, quando a vier trazer a casa, lhe meterá a mão atrevida entre as pernas, tentado enquanto a beija tirar um pouco de prazer do seu corpo robusto e arqueado pelo desejo.

A vizinha descuidada com as alças da combinação soltas dos ombros deixando antever uns seios debruçados e bem feitos, depois de uma despedida matinal.

A filha da vizinha com os seus olhos redondos, trança negra, mini-saia de ganga, que ao subir as escadas mostram o fio dental rosa choque que ela vestiu descuidadamente para impressionar o vizinho do terceiro esquerdo, que arfava nos seus vinte e cinco anos, a subir as escadas atrás dela, sempre atrás dela, três degraus abaixo, para não perder o espectáculo.

O senhor do café, o Sr. António que demorava uma eternidade a embrulhar os queques que lhe pediam, como se estivesse a vender um filho acabado de conhecer. Olha que o homem até irritava, o queque era meu, e ele a fazer de conta que não via o dinheiro em cima do balcão, enquanto arranjava voltas e mais voltas no embrulho. Depois vinha a pergunta crucial: mais alguma coisa, e ficava a mirar o embrulho que lhe escapava das mãos como se fosse a ultima vez que o visse.

A instituição do bairro é o barbeiro, pequenino, olhos verdes, sagazes, malandrecos, de uma vida cheia de vigor. É surdo-mudo o que confere à sua barbearia um autentico oásis no meio de um deserto de vozes e sons dos autocarros rocinantes e poluentes.

Nesta barbearia de bairro, não se discute futebol, acidentes ou política, vai-se lá só para cortar o cabelo, geralmente à moda antiga, curto mas fácil de pentear, onde apenas as moscas se ouvem e o restolhar das folhas das revistas ou do jornal, que ele prazenteiramente mete nas mãos do cliente quando eles transpõem o degrau da soleira. Alguns dos clientes adormecem no corte, tal a placidez do lugar. De vez enquanto ele tenta encetar uma conversa, por gestos é claro, que se traduzem muitas das vezes num equívoco tremendo. A última vez que tentei comunicar com ele fiz um gesto que me valeu uma aparadela à escovinha, deixei a partir daí a que fosse ele a decidir o corte ideal, não que ele tivesse muitos por onde escolher, mas sempre evitava que me olhassem na rua como se acabasse de entrar na tropa, e a partir deste equivoco, tentativas de conversa nada. O ritual é sempre o mesmo, bate nos ombros do cliente, revira as golas da camisa para dentro, porque sair do barbeiro com aqueles pelos irritantes a morder o pescoço, é das experiências mais torturantes que conheço, coloca então um pano de algodão que sacode ferozmente uma vez e outra, depois um avental, num tecido escorregadio e apertado, começa a cortar, primeiro com aquela tesoura com dentes, cortes duros e precisos, uma borrifadela no cabelo, um bocado de água nas patilhas, um retoque de artista com a navalha, mais uma batida nos ombros, o descambar da cadeira, mais uma escovadela rápida e o freguês que se segue. Este ritual é ligeiramente alterado quando passa algum “avião” no passeio da frente. A intuição diz-me que ele está a cortar dum lado, mas a obrigar-me a virar a cabeça para outro, no final um torcicolo e a visão de uma boazona ao longe, geralmente desfocada pela dor, e um sorriso de barbeiro com a missão cumprida.

Descer a rua, passeio antigo, pedra granítica fria, aquecida pelos raios de sol matinais, sacudindo ainda os cabelos que se tinham entranhado nos ouvidos e no nariz.

</span>Reparar na trintona loira, que se desloca à minha frente, muito tempo passam as mulheres no cabeleireiro a pintar, a cortar e a arranjar o cabelo, um autêntico desastre, estragam o cabelo e as carteiras do marido. Nesta tinham abusado da água oxigenada, mas o quadro geral visto de trás não era mau de todo e o traseiro bem feito e ondulante ajudava a compor a coisa, ela como sabia o efeito que causava no macho que lhe seguia no encalço, ainda realçava mais no andar o que tinha de bom.

Apetecia às vezes mandar uns piropos mas como nunca tive jeito para essas coisas, limitei-me a ultrapassa-la enquanto ela via na montra da farmácia o efeito que fazia ao pobre coitado que teve o azar de a seguir mais de cinco metros. Ficou a sorrir, para os produtos de beleza que dentro dos próximos anos iria gastar para manter aquela pele sem rugas e a pensar na plástica que teria que cravar quando chegasse aos quarenta e cinco para manter as formas que as gajas mostravam nos anúncios dos cremes. Entrou, devia ir buscar umas aspirinas, as desculpas de dor de cabeça nos últimos dias tinham que acabar em casa, o marido já andava desconfiado de tanta dor de cabeça e de manhã já passava demasiadas vezes as mãos pela testa a ver se estavam a crescer algumas protuberâncias ósseas, ou então, a loira conhecia o farmacêutico, rapaz muito gentil, bigodinho à Clarck Gable, mais para o cheiinho, mesmo assim uma gracinha, não fosse usar capachinho.

publicado por McClaymore às 21:45
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