Sexta-feira, 10 de Dezembro de 2004

United Colours (Trade Mark)

Vou falar de um tema que nem sempre temos coragem de abordar: o racismo.

Li um “post” que me deixou bastante apreensivo. Em primeiro lugar porque vi nele algumas das opiniões que neste momento são sussurradas por algumas pessoas descontentes. Os portugueses de um modo geral são pessoas afáveis e com um grau de integração e integradores que deviam servir de exemplo a muitos povos. Nos tempos idos dos saudosos governos do Prof. Cavaco Silva (desculpem-me aqui a minha deambulação, mas ela é importante para a verificação dos factos), vieram a terreno zurzir várias personalidades de esquerda contra o que se chama de racismo português. Foi orquestrada uma campanha, bem apoiada por algumas franjas desse sector, partilhadas várias entrevistas, dados motivos e até do Presidente da República da altura o fez. Fiquei extremamente chocado, não com o facto de me incluírem numa chusma de pseudo racistas, tribais e apoiantes do Ku Klu Klan. Na verdade deram uma imagem de que eu e outros tantos estávamos numa cruzada contra as minorias que se encontram neste País, mas o choque maior foi ver os que deviam dar o exemplo e acima de tudo manter uma certa distância, vir dizer alto e bom som que os portugueses eram racistas. Imaginem que até chegaram ao ponto de convidarem um cantor negro, que por acaso tinha ganho um ou dois discos de platina, dizer na nossa televisão, que efectivamente os portugueses eram um povo racista. O que ele não explicou e nunca nos foi explicado é que tendo em conta a quantidade de pessoas da cor dele, sendo uma minoria em relação à compra dos seus discos, como é que ele ganhou as duas platinas e quem efectivamente os tinha comprado, provavelmente os espanhóis? (desculpam-me aqui o meu racismo certamente).

O que se passa neste momento e julgo que não só sou eu que tenho essa opinião, é que os portugueses se sentem incomodados pelo estado em que o País se afundou: faltam os empregos, a precaridade do posto de trabalho é uma constante e sobretudo o poder real de compra tem diminuído nestes últimos anos.

É fácil culpar ou arranjar culpados, aqueles que representam uma série de ameaças ao nosso conforto do dia a dia, começando obviamente pelos motivos económicos, as ditaduras do século passado, recentes, apostaram fortemente nesses motivos para se apoderarem do poder. Nos somos um exemplo vivo disso.

Vou apenas fazer uma referência a dois episódios que me marcaram, o meu pai que fez uma série de comissões no Ultramar, combateu ferozmente os grupos que queriam a autodeterminação, nunca em circunstancia alguma o vi tratar com menos respeito outra pessoa fosse de cor fosse, bem pelo contrário, um dia apontou-me com o dedo um camarada, um igual a ele que combateu do outro lado e disse-me: “A este fui eu que o ajudei a fazer os estudos que tem…Um grande homem, muito inteligente – e depois sem rancor acrescentou – Pena que estivéssemos em campos opostos…”; uma outra vez disse-me “ Vez além aquele senhor, é meu camarada, lutou nas matas da Guiné comigo, é o militar mais condecorado do exército português, é preto, mas vale mais que muitos brancos juntos.”

Na verdade só vemos racismo quando confundimos a cor dos olhos com a cor do sangue, quando arranjamos desculpa para os nossos males influenciados por uma tonalidade de incompreensão. Compreenderão isso quando num dia, nesses tempos quentes de intoxicação, se estivessem no meio de uma rua e só porque não foram rápidos a afastar-se dos passos apressados de um transeunte, ele se virasse e dissesse: “Racista, os portugueses são todos iguais…”, claro que me apeteceu fazer-lhe a pergunta do que ele fazia na minha cidade e no meu País, contive-me a tempo, não quis retorquir com as armas mais fáceis que tinha na mão, perguntei apenas, olhos nos olhos: “Por acaso é português? Sabe o que é o racismo?…”.

Ainda hoje aguardo pela resposta. Eu adivinhei qual era: é fácil jogar com a ignorância das pessoas, é para isso que servem os políticos.

 

Nota do autor: Sou branco, caucasiano, português, sangue vermelho espesso, sangue árabe, negro e judeu, provavelmente correm nas minhas veias, e em alguns reis que nos governaram também, mas sobretudo sou humano como os outros que vagueiam neste planeta. Apenas, como bom português, continuo a não gostar de "nuestros hermanos".

publicado por McClaymore às 23:28
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2 comentários:
De Anónimo a 11 de Dezembro de 2004 às 13:56
Ai, o que eu gosto dos teus posts! Começas por falar dos saudosos governos do Cavaco e deixas-me logo com urticária. Meu caro, os portugueses são tão racistas como os outros. Pode ser porque se sentem ameaçados na sua estabilidade social (pouca, pouca..) ou porque associam outros grupos raciais a criminalidade, etc. Não interessa a razão e as desculpas. Claro que, a nível individual, podemos respeitar e ter grandes amigos de outras raças mas em que é que isso nega o óbvio sentimento de "estranheza" relativamente a outro grupo racial?? É aí que está o busilis e é isso que, em princípio, devia ser combatido. Beijos (e porque é que só me lês no meu blog abandonado??:))lique
(http://mulher50a60.weblog.com.pt)
(mailto:lique2@sapo.pt)
De Anónimo a 11 de Dezembro de 2004 às 00:22
Afinal não deixas de ser um pouco racista. É pena num homem como tu! O que é que os "nuestros hermanos" te fizeram? Tiveste alguma má experiêcia com o povo do nosso país vizinho? Vá... conta-me lá esses segredos?!? cega-rega
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(mailto:cega.rega@hotmail.com)

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