Sábado, 4 de Dezembro de 2004

"Rituais..."

O arrumar da roupa, despreocupado, para apanhar a boleia do meu avó, o viajar por atalhos, entre os muros e silvedos, em caminhos há muito percorridos por viajantes desconhecidos.

O parar lesto e despreocupado, para apanhar umas amoras silvestres, fugidias e defendidas, que retintavam as mãos de cor e açúcar.

O rilhar dos grilos, que se calavam tolhidos, o saltar dos gafanhotos que fugiam de uma qualquer sardanisca mais espevitada.

O olhar sobre os lameiros verdes, os regos cheios de água pura, onde alguns girinos se escondiam céleres à passagem da nossa sombra.

O sol da matina estival, que já ia longo e gasto.

O repicar de algum sino de uma aldeia ao longe, entremeado pelo som do vento quente, a esbracejar nos castanheiros velhos e cansados, cheios de pontos reluzentes e defendidos, que espreitavam latejantes o anunciar de mais um Verão efémero de S. Martinho.

O bater do pica-pau nos troncos dos pinheiros e dos carvalhos rasos de bolotas.

A erva verde que crescia, salpicada aqui e ali com o amarelo e roxo das flores. As abelhas, rápidas, sem cerimónia, sem tempo para se cumprimentarem, a pular de estigma em estigma, por entre dedaleiras e malmequeres selvagens.

O entrar no portão, velho, repintado de verde-garrafa, sempre entreaberto, percorrer os bardos, as estacas e conhecer de cor cada casta e cada cepa.

A sombra fresca das ramadas que se revezavam, os morangos, já selvagens que pintavam de encarnado, maduros e roídos pelos pássaros.

O sorriso da criada ao por em frente de cada um a malga com a sopa, onde o garfo dificilmente entrava e saia cheio de sabores quentes da terra.

A sacada em pedra, recoberta de madeiras antigas, secas e acolhedoras, sustentada pelos pilares do granito frio.

O espraiar ao longo do verde dos vinhedos, o rio lesto, calmo e profundo que corria nas gargantas, lá bem longe, em curvas e contracurvas sensuais.

O redondo das encostas, tolhidas pelos socalcos, as casas brancas, senhoriais que entrecortavam a paisagem, onde o fumo dos velhos fogões, anunciavam os afazeres de mais uma vindima.

As mulheres a cantar ao desafio, a rir de piadas brejeiras, o tomar de um gole só, um pouco de vinho retinto que pingava pelos cantos da boca, o passar a mão pelos lábios para retirar o ultimo pingo, teimoso, que caía na frente da camisa, quente e suada, do homem ajoujado pelo peso do cesto de verga, cheio do brilhante de cada cacho.

O bater do aço contra aço, da tesoura, que cortava impiedosamente, entre o restolhar de cada parra.

O lagar onde tudo começava e tudo acabava.

O olhar de aprovação quando se levava um bago à boca, doce e enjoativo, prenuncio de uma boa colheita.

O jantar iluminado pela lareira e pelo “petromax”, por onde se desfaziam as traças bamboleantes e encandeadas.

O entrar no lagar, já noitinha, o espremer, entre a pedra de cada bago, as cócegas por entre os dedos dos pés, que se prolongavam nas pernas, pintadas pelo mosto, cansadas e tolhidas, apenas comandadas pelo cantar dos homens entrelaçados, calças pretas arregaçadas em dobras mal feitas e pouco vincadas, mãos nos ombros do companheiro do lado, para suportar o compasso ritmado do feitor, avançando e esmagando, como se de um exercito se tratasse.

O acabar o dia entre lençóis de linho, branco e alvo, o quente dos cobertores de papa, antigos e amarelados.

O acordar com o raio de sol que batia no soalho velho, corrido, mal encerado. Abrir as portadas de carvalho e sentir o calor do dia.

O correr para a cozinha negra pelo fumo, o sentir as vozes de quem acordou à muito, o agarrar a tigela cheia de leite quente, acabado de tirar, cortar uma fatia de pão de milho fresco e barrar sôfrego a manteiga que derretia.

Os sons da casa, que imprimiam em ebulição, um novo dia, entrecortados pelo chiar das giestas que reacendiam a lareira, crepitantes, uivantes, a contorcerem-se, por entre as labaredas que esbarravam contra a parede enegrecida.

O retomar dos mesmos passos, o calor do trabalho, entre cada gesto que já se conhece de cor.

O voltar, o saber que para o próximo ano, o ritual se perpetuaria…

publicado por McClaymore às 12:38
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3 comentários:
De Anónimo a 6 de Dezembro de 2004 às 15:20
AAaaiii... até consigo sentir o cheiro!!!! :)tartaruga
(http://aexplanada.blogs.sapo.pt)
(mailto:teresafilipa@sapo.pt)
De Anónimo a 6 de Dezembro de 2004 às 13:30
fizeste-me voltar a sentir-me menina...paula
(http://babkowsky.blogspot.com)
(mailto:pau68virgo@yahoo.com)
De Anónimo a 4 de Dezembro de 2004 às 21:44
Graças aos Céus...que neste mundo urbano há alguém que me compreende....Também tenho memórias de tempos passados muito semelhantes a ESTAS.O teu texto "falou-me" ao coração, ao espírito: fez-me rever odores, sensações mil...obrigada...muito obrigada. Jinhos, BShellblueshell
(http://blueshell.blogspot.com)
(mailto:sengelo@mail.pt)

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