Terça-feira, 23 de Novembro de 2004

"Disto daquilo e de cousa nenhuma..."

O Teatro Fechado tem a honra de levar à cena: O Auto do Milagre dos Cravos…

 

Todos os personagens pertencem ou pertenceram a uma história de ficção, qualquer coincidência com a realidade, é mesmo e só uma mera coincidência. Aconselhamos ainda que as cenas pouco dignas não sejam vistas por menores.

 

Cenário:

 

Os actores encontram-se em pleno deserto com um fundo de um castelo medieval, encimado por aves negras e relâmpagos trovejantes. O séquito da rainha, pouco e mal ataviado, segue-a por entre os cactos e as silvas que se interpõem no caminho. Encontra-se em romaria, para inaugurar mais uma obra de caridade. Ao seu encontro, sem ela saber, vai o seu marido e o seu filho.

Este acto desenrola-se numa época muito conturbada em que os animais falavam e os cargos e honrarias eram herdados por nobre sucessão.

 


Personagens:

 

- D. Marocas, rei de um povo à beira mar plantado, gordo, anafado e bochechudo, retirado das lides, o seu maior empenhamento é o de dar entrevistas para a televisão. Quer ainda que o filho lhe suceda na condução dos assuntos do reino.

Vestes de safo, olhos brilhantes marotos, cabelos brancos de profundas arrelias. Viajante de mares nunca dantes navegados. Constantemente ateu, poliglota e republicano q.b. Frase célebre: “O meu reino por um avião…”

 

- D. Maria, santa de serviço, génio transviado do teatro para os palcos da vida, mãe extremosa, casada com D. Marosca. Tendência para se alapar a lugares que lhe foram confiados. Mau génio quando contrariada. Demonstra uma admiração sobrenatural pelo marido, mas não concorda com as suas herejes tendências. Frase célebre: “Mais vale presidente toda a vida do que ex-presidente de cousa nenhuma”.

 

- D. Marocas, Jr., príncipe encantado desta nossa narração, viajante inconfesso de lugares exóticos. Edil de uma cidade de mil cores, dificuldades em arrastar o nome da família que o precede. Tendência em ter desastres em locais ermos e pouco comuns. Retrato fiel do pai, apenas na figura e nos modos. Militante de causas perdidas. Não tem frases célebres.

 

Capítulo I

 

Cena I e única.


 

Narrador (de braços abertos e ar dramático): D. Maria acicatava o condutor do seu coche, último modelo, para que se apressasse, aquela estrada desértica era um mau prenúncio de maus encontros e más recordações.

 


D. Maria (aos gritos): “- Obrigue-me esse burro a andar mais depressa.”

 

Fiel Cocheiro (a cofiar o bigode): “- Mas Senhora, tive a liberdade de lhe comprar algo…”

 

D. Maria (continua aos gritos): “- Meta o “algo” no cú e a cenoura no burro para ver se nos despachamos, ainda quero ir ao cabeleireiro hoje”.

 


O Burro: (ar assustado): “- A cenoura aonde?”

 

Fiel Cocheiro (ar preocupado): “- Cala-te, não, não era para si Senhora. Mas e os seus seguidores? Não vão aguentar.”

 

D. Maria (ar de desprezo): “- Claro que vão, ande mas é lá mais depressa…”

 

O Burro (ar cansado): “-Eu é que não aguento…”


 

O fiel condutor, qual fiel palafreneiro, chicoteia o burro que de repente desata a correr desalmadamente. Mas eis senão quando, numa curva do caminho, lhes aparecem pela frente dois vultos, fantasmagóricos, envoltos em negras e deslavadas vestes.

O burro estaca, insólito e fremente, o condutor ainda a tremer, houve num repelão D. Maria a reclamar de dentro do coche último modelo.

 


D. Maria (mais uma vez aos gritos): “- Meu grande filho de uma criada, que maneiras são essas de se conduzir, parti umas costelas, e agora? Sabes bem que não tenho assistência hospitalar, vetaram-me as quotas na Cruz Vermelha, meu cocheiro de segunda…”

 

Fiel Cocheiro (ar muito preocupado): “-Mas Senhora, – tibetuou o fiel condutor – dois vultos se atravessam no nosso caminho e o burro com o susto parou…”

 

O Burro (a verter águas pelo meio das pernas): “-Mijei-me….com o susto, esses dois gajos são mesmo feios.”

 

D. Maria salta do coche, levanta as saias, e altaneira dirige-se para os dois vultos.

 

D. Maria (ar furibundo, aos gritos): “- Desimpedi-me o caminho maltrapilhos, tenho que me despachar.”

 

O primeiro vulto faz uma vénia e numa voz sibilante, qual mordaz bobo da corte, pergunta.

 

D. Marocas (incógnito de todo): “- Já não reconheceis a família, Senhora minha?”

 

D. Maria (ar cínico): “- Mas não estavas em Bruxelas a comer “Belgas” (leiam-se bolachas e não liguem ao trocadilho), ou nas Ilhas Caimão a andar de tartaruga? Divino esposo.”

 

D. Marocas (sem incógnito): “- Esta mulher está a gozar comigo?”

 

Dirigiu-se D. Marocas para o segundo vulto.

 

D. Marocas, Jr. (ainda incógnito): “- Pai, - disse o segundo vulto – pergunta-lhe o que ela leva no real regaço?”

 

D. Marocas (menos incógnito): “- D. Maria o que levais no vosso real regaço?”

 

D. Maria (ar de sonsa nº1): “- No quê?”

 

Retorquiu D. Maria fazendo-se de sonsa.

 

D. Marocas, Jr. (pouco incógnito): “- Pai, ela está mesmo a gozar contigo…”

 

D. Marocas (a espumar de raiva): “- Brincais comigo?”

 

D. Maria (ar de lerda): “- Não excelso esposo, sou um bocadinho lerda no meu português, desculpai-me. Por momentos pensei que falasses em outra cousa.”

 

E num repente, teatralmente, D. Maria abre o seu regaço, caindo deste uma data de G3, uma quantidade enorme de granadas de mão, umas quantas bazucas, e mais armas do que qualquer humano possa imaginar.

Boquiaberto o Rei, D. Marocas, ajoelhou-se, obrigou o segundo vulto a fazer o mesmo e exclamou.

 

D. Marocas (branco como a cal): “- Mas Senhora, são armas, estais a pensar nalguma revolução? E essas granadas têm cavilha, espero?”

 


D. Maria (ar de sonsa nº2) “- Claro D. Marocas tenho-vos ouvido com atenção e ando a tratar de tudo…Cavilha é alguma coisa que se coma?”

 

D. Marocas (sobrancelhas arqueadas) “- Minha fiel esposa, desculpai-me, mas por momentos pensei que leváveis cravos.”

 

Entretanto esbaforidos e de língua de fora, foram-se aproximando os seguidores de D. Maria que ao inteirarem-se da situação, gritaram em coro.


 

A Turba e o Burro: (língua de fora e a arfar, o burro de joelhos) “- É uma santa…”

 

O Rei bem que ficou desconfiado, mas como era ateu, retirou-se prudentemente para a sua Fundação, depois de ter feito umas tantas considerações sobre revoluções e cravos para as estações de TV que entretanto tinham aparecido como por milagre…

 

Fim.

 

O pano baixa, o único espectador ainda presente, chora comovido desalmadamente.

No final viemos a saber que era surdo, mudo, cego e paralítico, que tinha apenas entrado no teatro porque andava à procura de uma casa de banho e que tinha encravado o pirilau no fecho eclair, também não tinha conseguido fugir porque lhe haviam subtraído as muletas.

 

Nota do Produtor: Não devolvemos o dinheiro dos bilhetes caso tenha desistido a meio do espectáculo.

publicado por McClaymore às 14:49
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