Sexta-feira, 30 de Julho de 2004

"Amicus certus in re incerta cernitur."

latim “O amigo certo manifesta-se na ocasião incerta.”

 

Há dias em que acordamos sem sentir o significado de cada uma das palavras que quisemos esquecer.

A vingança e a raiva são demasiado profundas para saber quem magoamos.

As loucuras que cometemos têm sempre uma razão, mesmo que ela não seja transparente.

As lágrimas que vertemos, a saudade que sentimos, nem sempre vêm do fundo do coração.

Os lugares que visitamos já mudaram quando lá voltamos uma segunda vez.

As rugas que ganhamos e que fazemos ganhar, fazem parte dos sulcos da vida que trilhamos, muitas vezes sozinhos, muitas vezes acompanhados.

Não ganhamos com a tristeza dos outros, qualquer sorriso na nossa face.

Não escolhemos os amigos, não escolhemos as mãos que nos amparam na dor e nas desilusões, elas aparecem simplesmente.

publicado por McClaymore às 14:36
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Publicidade: Blog & Blog, Lda.

Juntei mais uns quantos ao meu Vale a pena lá ir: o Fábulas, pertence a uma dona de casa muito atarefada, mas é surpreendente como entre os tachos e as panelas ainda tem tempo de nos brindar com algumas palavras; o Pandora Box´s é como diz o nome uma autentica caixinha de surpresas; ainda o Poemas de trazer por casa e outras estórias, genial e muito bom; “and the last but not the lest” o do JPP, não precisa de publicidade, esse Abrupto, mas devemos lá ir de vez em quando por em dia a nossa cultura e os devaneios justos de alguns leitores que o JPP pacientemente publica.

Toca a blogar pessoal.

publicado por McClaymore às 14:26
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Quinta-feira, 29 de Julho de 2004

"Brothers in Arms"

Estive durante muitos anos ligado às actividades castrenses, mais propriamente oito anos e uns meses. Sou filho e neto de militares, portanto um bom “curriculum” para secretário de estado da defesa, mas com pouca vontade de ingressar num ministério onde há muitos “amigos”. Mas não foi isso que me levou a escrever este post.

 

Estávamos quase a entrar no perímetro, a noite, bastante escura e sem lua era a ideal para cumprir a missão que nos haviam confiado. Avisei os meus homens que se preparassem para o assalto final. Nos rostos pintados de negro apenas o brilhar dos olhos demonstrava o acabar da missão. Aperrei a minha arma e preparei-me para dar o sinal para avançarmos. No acampamento “inimigo”, não se vislumbrava vivalma e as sentinelas que o guardavam já estavam para trás a alguns metros, teoricamente eliminados. Quando dei a ordem, por gestos, algo me disse que alguma coisa estava errada, mas mesmo assim, confiante, mandei continuar. Aos gritos irrompemos para o centro do acampamento. O “Bexigas”, a alcunha que demos ao nosso instrutor, já estava à nossa espera. Com um sorriso cínico deu-me o bote final:

“- A sua secção é uma merda, já estávamos à espera dela à muito tempo, foram todos eliminados, a sua missão vai ter pontuação zero. Podem ir comer qualquer coisa e depois podem ir dormir. Alvorada às sete. “Briefing” às oito com os chefes das outras secções. Pode mandar dispersar.”

Seco e eficaz, este “Bexigas”, nem me deu tempo de reclamar. Quem tinha sido o filho da mãe que nos tinha denunciado, eu tinha quase a certeza absoluta que o “inimigo” nem nos tinha visto. Em dado momento tinham passado dois tipos por nós, junto a um muro e um deles, ao mijar quase o tinha feito para cima de mim, quase me ia pisando e não me descobriu. Iria dormir e amanhã com um bocado de sorte saberia o que tinha feito falhar aquela “missão”. Avisei os meus colegas de tenda, digo camaradas, porque na nossa linguagem, colegas “são as putas” e amigos “os paneleiros”, o “KK”, diminutivo de “King Kong” e o “Modess” que teria que acordar às seis para ir dar um giro. Queria verificar o caminho que tinha feito até ao acampamento e saber o que me tinha traído. Às seis em ponto recebi uma cotovelada do “KK”, acordei de imediato e sorrateiramente saí do acampamento. Esgueirei-me pelos caminhos que evitavam as sentinelas, não estava com pachorra para dar explicações ao “Bexigas”, sobre o meu “desenfianço”. Andei ás voltas durante um bom bocado. Não descortinava nada que me levasse a imaginar como me tinham apanhado. Estava quase a desistir quando numa vala cheia de erva, descobri a pista que queria, um bocadinho de bolacha. Fiz o caminho inverso todo a imaginar o que ia fazer ao sacana do “Geleia”. Aquele corpinho com um metro e noventa, era difícil de alimentar, o estupor tinha de certeza enfiado um pacote de bolachas na mochila e tinha durante o percurso todo andado a encher o estômago. Ainda por cima descuidado, tinha deixado cair bocados, que o “Bexigas” devia ter descoberto e seguido. Estava a rir-se por dentro mas devia ser por pouco tempo. Quanto ao “Geleia” iria tratar-lhe pessoalmente da saúde, uma dieta era o ideal. Cheguei a tempo do “briefing”, onde fomos notificados que a “missão” iria ser repetida face aos maus resultados, pelo que às zero horas deveríamos ser deixados outra vez a três quilómetros do acampamento para a repetirmos. Lá fomos abandonados à nossa sorte, antes de começarmos a caminhada, e a pretexto da verificação do equipamento, mochilas, enchimento dos cantis, peças soltas nas armas e a bater, quando chegou a vez do “Geleia”, calmamente, abri-lhe a mochila que ele levava nas costas, retirei-lhe o pacote das bolachas que o animal escondia, tornei a fechá-la sem ele dar conta e fiz sinal à secção para avançarmos. A dieta forçada do “Geleia” tinha começado. Pelo caminho fui comendo bolachas e deixando migalhas, na esperança que mais uma vez o “Bexigas” seguisse o trilho. Quando nos estávamos a aproximar do acampamento, fiz sinal ao “KK” para me acompanhar e ao resto da secção, “Geleia” incluído, que se mantivessem sem se mexer, à minha espera. Foi aproveitando e espalhando mais bocados de bolacha. Fiz um desvio para as latrinas do acampamento. Eram umas quatro, retirei com o “KK” as lonas e os paus que as rodeavam. Começamos a apanhar ervas e enchemos os buracos mal cheirosos quase até ao cimo, mas sem acamar. No final e no seguimento do trilho que tinha deixado, “la piece de resistance”, uma bolacha inteira no meio de uma das latrinas. A parte final do meu plano, estava a compor-se, contava com a argucidade do “Bexigas” em apanhar as pistas deixadas por mim, para depois eu não desconfiar como me tinha descoberto. Voltei para junto dos meus rapazes, segui por outro caminho e esperei pacientemente que o “Bexigas” experimentasse na pele a minha armadilha. Não precisei de esperar muito, um vulto a correr, depois de umas asneiradas, largadas ao acaso, entrava no acampamento. Eu aproveitei a confusão que ele levantou para entrar triunfante com a minha secção toda atrás. O “Bexigas” ao amanhecer, depois de se ter desfeito da farda e das botas todas sujas e de um bom banho em água fria, chamou-me à parte e confidenciou-me:

“- Só ontem descobri porque lhe chamam “Brains”, está de parabéns.”

Estendeu-me a mão para um aperto, eu olhei desconfiado enquanto estendia a minha, ele com aquele sorriso malandro que eu tão bem conhecia, disse:

“- Esteja descansado já está lavada e desinfectada com álcool…”

 

Ao KK, Copo de 3, Fritz, Geleia, Calimero, Modess, Pintinhas, Jimmy, Sardinha, Peles, Catatau, Comanche, Soviético, Contraplacado e outros tantos irmãos de armas.

publicado por McClaymore às 18:26
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Segunda-feira, 26 de Julho de 2004

Pecados velhos, os meus claro...

Qualquer coisa me dizia que devia ter acordado mais cedo, uma delas era o despertador, já tinha tocado seguramente mais de vinte vezes, aquele desenho animado a puxar do martelo para desfazer aquele toque inoportuno já tinha repassado pela minha cabeça todas as vezes que aquela peste electrónica se punha a desbobinar um sinal intermitente. O subconsciente continuava a tentar tirar-me daquele torpor, mas nada feito.

A noite tinha sido longa, os copos também, as noites de pecado na Costa são longas e quentes.

A campainha tocou e eu tacteei uma ou duas vezes para tentar perceber se a Sofia ainda estava deitada ao meu lado, abri uma pálpebra e vislumbrei apenas um bilhete do lado dela que indicava a sua saída. Leria as suas reclamações mais tarde.

Puxei umas cuecas com os pés, do meio da cama e sem tirar os lençóis, vesti-as rapidamente. A campainha continuava a tocar e a retinir na minha cabeça, fazendo um eco enorme como se o corredor que eu percorria nunca mais acabasse. Apenas de trajes menores e completamente absorto no meu letárgico acordar, premi o botão para abrir a porta, quem era o chato que se lembrava de me vir incomodar às onze da manhã. Não lembrava a ninguém. Ouvi bater na porta do apartamento e uma voz conhecida avisou-me que já estava mesmo ali. Mais uma chatice, alguém na próxima reunião de condóminos iria reclamar sobre portas de prédios mal fechadas. Absorto nesta malfada noção, apercebi-me que só estava de cuecas pelo que ao mesmo tempo que abria a porta, retirava-me estrategicamente para o quarto.

O raio do corredor era mesmo comprido, ainda tive tempo de ouvir a voz da minha mãe nas minhas costas:

“- Ó João António, se não te conhecesse, diria que estás a ficar um pouco esquisito. Essas cuecas às florzinhas devem ser moda por cá, não?”

Só ao passar frente ao espelho do quarto e desta vez, já bem acordado, pelas gargalhadas da minha mãe, reparei efectivamente, que o meu gosto por cuecas estava a ficar em decadência, as que usava não eram minhas de certeza, ainda bem que a Sofia não usava fio dental, as explicações sobre o uso indevido de lingerie iriam prolongar-se mais do que o necessário, também, nunca mais ia deixar de dar importância aos bilhetes da Sofia, este dizia apenas:

“Beijos meu Amor. Não te esqueças que hoje chegam os teus pais.

P.S.: Não encontrei as minhas cuecas, passo aí mais tarde para vesti-las.”

publicado por McClaymore às 19:23
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Sábado, 24 de Julho de 2004

Partidas e Chegadas.

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Foi aqui que partiram os meus sonhos, que regressaram em branco, que se esfumaram em desilusão profunda.

Quem quer fantasias sem sentido, quem quer viagens sem regresso, quem quer ficar no ponto de partida?

Quem quer beber sonhos de garrafas estilhaçadas e copos vazios?

Quem quer saber se chegaste, se ninguém te viu partir?

publicado por McClaymore às 12:33
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Sexta-feira, 23 de Julho de 2004

Carta aberta ao Sr. 1º Ministro.

Exmo. Sr. Dr. Santana Lopes,


Agradeço desde já a formação tão rápida de um governo. Infelizmente julgo que a velocidade com que fez as nomeações levaram-no por caminhos atrás bastante percorridos, os anteriores governos provisórios, de má memória, também eram rápidos a ser nomeados e mais rápidos a serem demitidos. A dança das cadeiras nas secretarias de estado, também não foi muito abonatória, mas que o Jorge Sampaio merecia, merecia. Então ele não esteve todo aquele tempo a deixá-lo sofrer, aqueles 55 minutos da sua vingança foram também oportunos. Continuamos sem vislumbrar ainda o perfil dos nomeados e as (im)competências deles, mas para um período tão curto de governo, quando ele acabar, já também ninguém se lembra disso. O meu avô contou-me um dia, uma história de um pobre homem que por um crime qualquer de lesa-majestade, foi chamado ao rei. O rei homem bastante cruel condenou-o à morte, ele humildemente pediu a prorrogação do prazo por dois anos, visto ter um burro que estava a ensinar a falar. O rei mesmo incrédulo, deu-lhe o benefício da dúvida e impôs-lhe como condição, que ele ao fim dos dois anos teria de mostrar tão extraordinário fenómeno e que a pena que lhe deu, fosse aplicada. Quando o homem se retirava, um dos espectadores perguntou ao homem se este não havia ficado preocupado, visto nunca ter visto um burro a falar. Este replicou: “- daqui a dois anos, ou morro eu, ou morre o burro, ou morre o rei.” O governo de V. Exa. não sei ou se é o burro ou se é o rei, mas eu é que já me estou a ver lixado, eu e mais uns quantos portugueses, porque daqui a dois anos vamos ter mais uma pena ou uma factura para pagar.

A minha outra preocupação prende-se com os buracos que V. Exa. deixou nesta cidade, o buraco orçamental, que é um bocadinho inquietante e os outros que mandou abrir, eu sei que é especialista em tapar buracos ou cobri-los, conforme o ponto de vista, mas estes não devem ter merecido a sua devida atenção e o seu sucessor na câmara, não sei se terá efectivamente a sua apetência em tapá-los.

Desejo ainda que V. Exa. continue na sua saga de abrir buracos, pode ser que um dia destes, bem próximo espero, descubra petróleo e tenha assim oportunidade de resolver os problemas que afectam o País, mesmo que isso não aconteça, não deixará obra feita, mas deixará trabalho para os que lhe sucederem.

Eu já perdi a conta que me candidatei a cargos públicos, aceito qualquer vaga disponível numa qualquer secretaria de estado que esteja ainda em pensar criar, logo que não seja para trabalhar com o seu amigo Paulo Portas. Espero ainda que aquela sua ideia de transferir os ministérios para fora da cidade, que veemente defendeu como Presidente da Câmara, esteja em pé, aquele para onde me vai nomear, pode mudar-se para as Seicheles.

Sem outro assunto de momento,</span>

Para o bem da Nação,</span>

 

McClaymore

publicado por McClaymore às 13:24
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Vá de férias, mas continue a blogar...

A Lique “acusou-me” de estar a prestar um “serviço público” de divulgação de blogs, independentemente do serviço que presto à comunidade, acho que blogar é mais do que escrever, é também ler e divulgar, gostemos ou não daquilo que lemos e sentimos. Aproveito para fazer publicidade do Vida de Casado e do Pichas Moles, o primeiro já conhecia o segundo agradeço o seu descobrimento à Explanada, no segundo terão que ter um espírito mais “aberto”, pois o nome diz tudo, se bem que algumas das considerações sejam fortes demais e a linguagem à moda de Braga, bastante explicita. Portanto vou juntar mais estes dois aos meus links e tratem de lá ir.

E continuamos a blogar…

publicado por McClaymore às 11:22
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Quinta-feira, 22 de Julho de 2004

A preto e branco, com folhinhos...

Aquela fotografia a preto e branco, sempre me intrigou.

Estavam lá todos, a Isabel, a Paula, a Teresa e o Rui, o que eu não conseguia  identificar era quinta personagem que se encontrava numa das  pontas desse idílico quadro. A Isabel com um vestido aos folhos, muito em moda nesse tempo, a Paula e a Teresa com vestidos às florzinhas e o Rui de camisa e calções. A outra figura com um vestido largo, um ar misterioso e embaraçado, contrastando nitidamente com o ar de gozo dos outros. Atrás da fotografia uma data, e uma localidade: Torreira. Todos sentados no alpendre da casa do meu avó.

Tentei nas minhas memórias encontrar uma resposta para a incógnita que me atravessava o espírito. Quem era a quinta figura. Depois de muitas voltas, não encontrava qualquer solução. Até que enchendo-me de coragem perguntei á minha mãe:

“- Armanda, nesta fotografia tirada na Torreira, quem é esta menina loira que se encontra nesta ponta?”

A minha mãe antes de me dar uma resposta começou por me perguntar:

“- Lembras-te da casa do teu avó?”

“- Claro que me lembro.”

“- Lembras-te que a casa da Torreira tinha uma piscina, onde vocês em alguns dos dias que não queriam ir à praia tomavam banho?”

“- Lembro, mãe, lembro. Mas o que tem a ver a piscina com a fotografia?”

“- Bem filho a “menina loira” da fotografia és tu, sabes, como sempre com a tua mania da água, num desses dias em que chegamos à casa, decidiste mandar-te de cabeça para a piscina. Nós ainda não tínhamos descarregado as malas todas e a única roupa disponível era a da Paula, e para não passares frio, a Marília vestiu-te com aquele vestido.”

E depois num ar de gozo, rematou:

“- Diz lá que o teu pai não dava um excelente fotógrafo.”

Eu, encavacado jurei que ia enterrar “aquilo”, bem fundo num álbum qualquer e todas as vezes que alguém a encontrar, vou dizer que aquela menina era uma amiga, não vou ter coragem de explicar que aquele personagem de folhinhos e tafetá é a minha excelsa pessoa.

publicado por McClaymore às 10:55
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Quarta-feira, 21 de Julho de 2004

Bloguemos...

Estou nitidamente com falta de inspiração. Eu diria mais, estou sem pachorra para blogar. Os meus amigos que me perdoem, há fases de profundo pesar e autentico martírio. Lamento estar a passar por um deles. Preciso urgentemente de umas férias instantâneas. As minhas ideias continuam a fluir, eu não tenho é paciência para as escrever. Os meus dedos estão presos e o meu cérebro não lhes consegue dar ordens.

Julgo que é um mal que se transmite, a doença das férias, é uma epidemia que nunca será controlada.

Prometo recomeçar, mal tenha alguma disponibilidade.

Eu blogo, blogue você também…

publicado por McClaymore às 16:49
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Sábado, 17 de Julho de 2004

“At My Funeral”

Adoro histórias com um final feliz. Não sou moralista, mas nas linhas que escrevemos e que lemos, vemos sempre algo de mais profundo do que um simples repassar de palavras.

Uma banal letra de canção tem por detrás mais do que a voz que a canta, ou a música que nos atinge:

 

“I’m still young, but I know my days are numbered

1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 and so on

But a time will come when these numbers have all ended

And all I’ve ever seen will be forgotten

 


Won’t you come

To my funeral when my days are done

Life’s not long

And so I hope when I am finally dead and gone

That you’ll gather round when I am lowered into ground

 

When my coffin is sealed and I’m safely 6 feet under

Perhaps my friends will see fit then judge me

When they pause to consider all my blunders

I hope they won’t be too quick to begrudge me

 

If I should die before I wake up

I pray the lord my soul will take but

My body, my body – that’s your job

 


I can’t be sure where I’m headed after death

To heaven, hell, or beyond to that Great Vast

But if I can I would like to meet my Maker

There’s one or two things I’d sure like to ask”

 


 

In “The Ghosts That Haunt Me” by Crash Test Dummies.  

publicado por McClaymore às 12:23
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Quinta-feira, 15 de Julho de 2004

Alea jacta est...

- Passam cinco minutos das oito, pode começar a servir o jantar.

Matemático, o relógio do meu avô acabava de ditar que quem se atrevesse a entrar na sala, depois de ele dar ordens para servir o jantar, o melhor era dar meia volta, contar com a generosidade da cozinheira e comer na copa.

Às vezes eu fazia de propósito, então quando a ementa não me agradava, limpinho, lá chegava eu atrasado. Não que eu gostasse muito de comer na copa, porque quem normalmente lá estava era a Marília, aquela do rabo grande, e aproveitava bem o meu anterior devaneio para se desforrar:

- Ou o menino come tudo ou eu vou fazer queixa ao seu Avô.

Normalmente referia-se às verduras e à sopa, eu engolia em seco, engolia as verduras e a sopa com os olhos fechados, enfrentar a fúria do meu avô por ter chegado atrasado, ainda aguentava, agora por não ter comido tudo, era melhor pensar duas vezes. Nem queria pensar no castigo que me poderia calhar. Desterrava-me de certeza para casa da mãe, a minha bisavó e podem crer se a Marília gostava de fazer a vida negra, a Esmeralda a criada da minha bisavó ainda gostava mais de mim, já lhe tinha feito umas quantas, já nem eu sabia quais. Não é que a casa, ficasse longe, na verdade ficava em frente à do meu avô, mas para além da Esmeralda eu tinha ainda que enfrentar os dentes dos dois “pequinois” que a minha bisavó adorava. Esses eram bem piores que a Marília e a Esmeralda juntas, partilhávamos um amor profundo entre nós, eu aproveitava cada distracção da dona para lhes dar uns valentes pontapés e eles retribuíam, quando eu estava distraído, com umas valentes ferroadas nas canelas. De vez em quando, lá conseguia livrar-me deles, antes de visitar a minha bisavó, tocava à campainha, abria a porta ligeiramente e sabendo de antemão que o “garoto” e o “lord” gostavam tanto de mim, mal me pressentiam, desatavam num berreiro e numa corrida para ver se me apanhavam.

Os “bichinhos”, de dentes arreganhados e com as ganas todas para me arrancar um bocado, mal viam a porta aberta, fugiam. Apareciam normalmente passados dois ou três dias quando do canil da Câmara, telefonavam a avisar para os irem buscar ao “hotel”, bastante escanzelados, todos sujos e depois de terem andado a tentar comer todas as cadelas com cio das redondezas. Também não deviam comer nada, mas disso eu não tinha culpa, tivessem umas perninhas maiores, e não obstante eu lhes dar oportunidade de uns devaneios sexuais, nunca me ficaram gratos por isso.

Depois de os soltar, eu aparecia meia hora mais tarde, para que a Esmeralda ou a minha bisavó não desconfiassem do pequeno favor que tinha feito às duas carpetes com patas.

Para piorar a minha triste sina, se o relógio do meu avô era mau, o da mãe era bem pior, era um relógio de cuco que quando soavam as oito, aqui não havia tolerância de cinco minutos, estava tramado, quem chegasse atrasado, normalmente comia só sopa, e guardado sempre pela cara de pau da Esmeralda, que na vida anterior devia ter pertencido à Gestapo. Apenas me livrei do maldito cuco, quando lhe enfiei um bocado de algodão no buraco, naquele dia comemos quase às nove, o raio do cuco não cantou.

Estava eu a pensar como é que eu mandava a Marília durante uns tempos para casa ou para a cama, quando me ocorreu uma ideia. Tinha recebido no Natal, um porta-aviões enorme, quase com um metro, com uns aviões que aterrava e descolava, como nas aventuras do “Major Alvega”.

O casco do porta-aviões era escuro, e virado para cima, assentava perfeitamente nos degraus das enormes escadas da casa do meu avô. Coloquei o belíssimo navio, perfeitamente camuflado num dos degraus e comecei a chamar pela criada:

- Marília, Marília, Mariíilia…

Tenho a impressão que exagerei, porque passados segundos, ouvi alguém a pisar o porta-aviões, uns berros e um bater de traseiro espectacular, que até a mim me doeu.

Quando me apresentei diante da figura que havia tropeçado na minha armadilha, decidi emigrar voluntariamente por quinze dias para casa da minha bisavó, quem havia caído na minha esparrela, não tinha sido a Marília, eu devia saber que o cu da Marília quando batesse no chão deveria ter feito mais barulho e também não devia ter levado aquele sorriso parvo nos lábios. Os cães, a Esmeralda, a minha bisavó e o cuco dela pareceram-me mais fáceis de enfrentar que a fúria da minha mãe com o rabo dorido.

 

P.S.: O porta-aviões foi abatido ao serviço, nunca mais o vi, julgo que foi fazer a felicidade de outro petiz, e eu também nunca perguntei qual, por motivos óbvios.

publicado por McClaymore às 00:55
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Terça-feira, 13 de Julho de 2004

O meu também…

Depois de ler o post do Binoc dedicado ao Pablo Neruda, decidi-me escrever um, todo dedicado à problemática freudiana do sexo.

Após uma análise putativa e consultados vários especialistas, feita ainda uma sondagem a nível nacional, num universo apenas limitado ao sexo feminino, vulgo mulherio, chegou-se ao seguinte resultado:

Quando confrontados com o problema de não ter sexo, e segundo algumas das inquiridas, isso era uma dificuldade relativa, também explicado por outro judeu famoso, chamado de Alfred, para além disso, segundo elas, no local onde residiam esse problema não se punha: “os anjos nunca tiveram sexo nem nunca haveriam de ter”.

Não consideramos este resultado como importante para a nossa sondagem, pelos seguintes motivos:

A nossa telefonista, que está meia cega e passou a tarde toda a ligar para o mesmo número, quem o atendia era um Pedro qualquer coisa. (Estejam descansados pois não era Santana Lopes, verificamos isso à posteriori, ficamos sempre na dúvida se a telefonista tinha ligado para um colégio de freiras ou directamente para o Céu).

No universo seguinte, ficamos mais aliviados pois as senhoras que nos atenderam eram mesmo especialistas, deram-nos ainda a morada, para que nós fizéssemos a sondagem no local. Ainda pensamos lá levar o Binoc, mas como a sondagem era para resolver o problema dele, decidimos ir só nós. Ficamos de pagar uma quantia do caraças a essas profissionais, mas como sabemos que o Binoc é um tipo que trabalha num cabeleireiro da alta e já lhe saiu o totoloto duas vezes, demos a morada da casa dele para elas mandarem lá alguém para receber.

Estes pormenores, não alteram significativamente o resultado final da nossa sondagem.

Aguardamos o resultado que o Binoc ficou de apresentar, feito num lar da terceira idade, mas ele recusou-se a deslocar ao local, alegando motivos de força maior.

Das donas de casa inquiridas sobre o assunto, foi-nos dito na maioria dos casos que não sabiam o que era sexo, outras não souberam ou não quiseram responder, de vez em quando falavam ainda na falta do padeiro, nós insistíamos que era uma sondagem sobre sexo e não sobre a indústria da panificação, a conversa normalmente azedava e desligavam o telefone.

Depois de elaboramos um relatório final e ouvido o Júlio Machado Vaz, conclui-se:

O problema do sexo é um problema que extravasa o simples facto de haver ou não haver. A falta de sexo não se limita à falta de sexo do Binoc, é um problema mais amplo.

O problema do Binoc é ainda mais grave, o Pitágoras escreveu um teorema sobre isso, o problema do Bionoc não é sexo, é a falta dele.

Pior que não ter sexo é não saber com quem se faz.(Os chamados blind date). A quantidade não é sinónimo de qualidade. Não ter sexo não é problema, à muita gente que não sabe de que sexo é.

 

P.S.: Não precisas de agradecer Binoc, nós gostamos de ser prestáveis, não te esqueças é de pagar a conta. Também não te preocupes com a opinião do Júlio, ele devia era estar a fazer “O Passeio dos Alegres”. Um abraço.

publicado por McClaymore às 18:58
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Segunda-feira, 12 de Julho de 2004

Desventuras.

Estava decidido, pela primeira vez a trupe dos quatro ia atacar. Os preparativos tinham que ser feitos com cuidado. Os bancos e as cadeiras que tínhamos que surripiar teriam que ser cuidadosamente transportadas e colocados sem que o alvo suspeitasse de nada. Treinávamos as mentiras mais inverosímeis, para que o planeado corresse na perfeição. Juramos ainda sobre uma revista do Tio Patinhas que de modo algum haveria traições e que ninguém tentaria tomar o lugar de ninguém. Previmos o nosso ataque depois do lanche. Ficávamos com cadeiras disponíveis, e para além disso evitávamos que fossemos apanhados com eventuais atrasos a refeições.

Claro que nada disto se tinha passado se nunca tivéssemos travado conhecimento com uma famosa autora, muito em voga na altura: Enid Blyton e as aventuras que descrevia nos seus livros dos cinco.

Após o lanche e com a desculpa que tinha que ir à casa de banho lavar as mãos, a Paula, a da minha idade, abriu silenciosamente a janela da casa de banho. Depois entrei eu para verificar se o trabalho da Paula estava em boas condições. Com o corrupio de vezes que fomos à casa de banho dava a qualquer adulto a oportunidade de notar que estávamos a preparar alguma, qualquer pessoa desconfia de miúdos com seis ou sete anos de idade a lavarem as mãos tantas vezes, mas a sorte protege os audazes.

Sub-repticiamente, lá fomos deslocando as cadeiras do seu lugar habitual para as traseiras que davam para a janela, se alguém nos apanhasse, já tínhamos delineado uma desculpa, íamos ficar ali a descansar um bocado. Uma desculpa como qualquer outra e perfeitamente idiota para que um adulto acreditasse nela.

Quando nos preparávamos para montar o nosso posto de observação, como já devem ter percebido, a casa de banho, mais propriamente a casa de banho das criadas, e já todos instaladinhos nas cadeiras, apareceu o Rui, o querubim da família. Não tínhamos contado com ele, nem com ele nem com o berreiro que ele fez para subir para uma cadeira e observar também pela janela onde nós estávamos a espreitar. Após uns minutos de conversação e como o nosso alvo ainda não tinha aparecido, deixamos que o fedelho ficasse sozinho a tomar conta das operações, na esperança que ele nos avisasse se a Marília, a empregada, lá entrasse.

Quando nos preparávamos para desistir, vimos o Rui completamente absorto e a exclamar altíssimo:

- Grande cu…

O resto da história é difícil de contar, e os castigos exemplares que recebemos também. O Rui, o único que teve direito, aquela visão fantástica, nunca conseguiu mesmo depois várias torturas e alguma persuasão, dar uma ideia do tamanho daquele rabo e depois dos avisos que recebemos sobre a nossa aproximação àquela janela, desistimos de olhar outra vez através dela, ou mesmo de ver o cu da Marília mesmo em sonhos. É verdade durante muito tempo foi a grande arma do Rui, ele tinha sido o único que tinha visto o rabo da Marília, e nós tínhamos pago por isso.

 

Para a Isabel, a Paula, a Teresa e o sortudo do Rui.

publicado por McClaymore às 22:55
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Blogando…Blogando outra vez.

Como os meus amigos podem ver juntei mais uns quantos à minha pequena lista de locais interessantes para consultar. O Blogue de Cartas, faz-nos pensar e acreditar que não estamos sozinhos neste mundo cão. O Bota Acima, conta-nos histórias de amizade e brinda-nos com algumas reflexões. Na verdade o meu critério é um pouco bizarro, mas podem crer que se consultarem O meu problema é sexo terão uma das melhores experiências das vossas vidas, quanto ao Postal, é extraordinário, é vida, é cor, é samba e vale a pena mesmo lá ir…

Continuo a fazer concorrência ao Prof. Marcelo e a não ganhar nada com isto. Mas que se lixe, blogar é isto mesmo.

E pede-se mais uma vez que continuem.

Bloguemos.

publicado por McClaymore às 12:43
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Sábado, 10 de Julho de 2004

Auto do Purgatório.

Tinha que me controlar, esta minha boca ainda podia ser o meu fim, dificilmente poderia explicar aos meus pais uma súbita aparição, fora do período de ferias.

Outra bronca na aula de português e estava completamente acabado e em desgraça.

Decidi comportar-me como um cavalheiro. Por essa altura estávamos a dar em filosofia, o Cepticismo Prático, o Padre Jorge, filosofo de plantão, tentava explicar que esse tema filosófico se centrava num pensamento em que, em toda a proposição cientifica haveria sempre outras contrárias e que portanto deveríamos vive-las sem discuti-las. O que Pírron, 300 anos antes de Cristo se deu ao trabalho de inventar. O Padre Jorge para rematar a sua explicação, contou uma piada de como um dia, esse filosofo, foi encontrado a correr com um cão atrás pelas ruas de Atenas, e um seu discípulo lhe perguntou: “Mestre esse cão não é real, porque fugis diante dele?”, ao que Pírron respondeu: “O cão não, mas os seus dentes sim.”

Depois desta piada e desta explicação passei a comparar o novo companheiro de turma da Isabel como um novo céptico. Ele não se sentia atingido pelas mamas da Isabel, porque para além de usar óculos, a Isabel não estava lá e portanto as mamas dela não lhe faziam levantar a testosterona.

No entanto mantinha escrupulosamente o controlo das mãos do seguidor da nova filosofia debaixo de olho, não fosse o diabo tecê-las. Para além disso era sempre de desconfiar de um tipo que para além de ser demasiado religioso, era um marrão e que só não tinha ido para um seminário por ser filho único.

Estava escrito que o ano não ia acabar bem, embebido pelas palavras de Gil Vicente, recitadas pelo “Submarino”, o Emídio, brincava distraído com a “Bic”, de repente, sem que ninguém suspeitasse, aconteceu, a tampa da caneta, saltou e foi-se alojar no meio dos seios da Isabel. O lerdo do Emídio, olhava desmesuradamente para a tampa que desaparecia naquele rego tentador. A Isabel aproveitando a deixa perguntou: “Porque não a tiras?”. O inocente quase sem olhar tentou tirar a tampa e a Isabel aproveitou para se mexer, fazendo com que os dedos do Emídio lhe tocassem levemente. Nessa altura impulsionado por um grito de revolta, que me saiu da garganta, o “Submarino”, olhou e viu aquela mão naqueles seios enormes.

Fomos expulsos os três, e levados de imediato para a porta do Reitor. Pelo caminho eu ia provocando a Isabel e o Emídio. A Isabel corava, o Emídio benzia-se e o Professor recalcitrava, mandando-me calar e dando azo à minha imaginação com a minha saída extemporânea do Colégio.

Quando chegamos à porta do gabinete do Reitor, Emídio, o céptico, ficou especado, o Professor depois de um minuto de reflexão e resmungando qualquer coisa sobre a impossibilidade de tentar explicar ao Reitor que o santo lá da casa tinha apalpado a Isabel, desapareceu, deixando-nos aos três em frente da porta e isolados naquele vasto corredor.

O Emídio ainda a benzer-se e em transe, foi encontrado pelo Reitor, tentaram um exorcismo mas ele nunca mais recuperou do choque e transformou-se num boémio.

O Professor desistiu de dar aulas.

A Isabel e eu depois de uns grandes marmelanços que começaram logo que saímos dos corredores naquele dia, nunca mais nos encontramos, mas certamente ainda nos havemos de rever naquelas tristes figuras.

publicado por McClaymore às 22:46
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Auto do Inferno.

Depois da vingança, a bonança, mas foi por pouco tempo, para além disso a moda pegara, o Professor de português passou a ser carinhosamente tratado por “Sr. Padre”, acicatando ainda mais, o ódio de estimação que me nutria.

Para agravar mais a minha miséria, deslocou a Isabel e as mamas dela para outra companhia e deu-me como colega de carteira a Felizbela. Eu primeiro nem queria acreditar, para além de me retirar de tão farta companheira, dava-me uma, de que nem o nome vinha no dicionário. E lá foi a Isabel fazer companhia ao Emídio.

Mas podem acreditar, o nome dela era mesmo aquele, verifiquei duas vezes no Bilhete de Identidade da rapariga.

Esse nome não lhe fazia justiça, era feliz sem dúvida, agora de bela não tinha nada, gorda, baixa e entroncada, olhos escuros encimados por uma cabeleira encarapinhada, que ela de certeza tinha dificuldade em pentear, nariz abolachado, entrecortado aqui e ali por uns pigmentos pretos e horripilantes. Bigode enorme, nunca lhe tinham explicado as vantagens da depilação do buço, as pernas grossas, eram mais musculadas que as minhas, e para rematar, vestia debaixo das saias travadas, uma cinta justa, que lhe comprimia as gorduras fartas e as fazia transbordar nos fundos das camisas, resumindo um horror.

Perdi o Paraíso e passei para o Inferno, o Gil que me perdoe, mas durante o auto dele comecei a recitar uma pequena estrofe que li num livro velho lá de casa e que era atribuído ao Bocage, homem inteligente que num dia em que passou pelo que eu estava a passar, rimou:

“Feia, feia, feia, feia,

Feia, feia e continua,

Não há cara neste mundo,

Tão feia como a tua.”

Azar outra vez, aquele professor tinha ouvidos de tísico, chegou-se ao pé de mim e perguntou-me:

“Presumo também que esse lindo verso não faz parte do nosso Auto, pois não?”

“Não, é do Bocage…”

E indicou-me a porta da rua. Eu aproveitei, para o irritar ainda mais, ao despedir-me com um sorriso e um:

“Boa tarde, Sr. Padre? Já agora conhece aquela do Bocage…”

Sem lhe dar tempo de replicar, recitei para a turma inteira:

“Casou-se um bonzo da China,

Com uma mulher feiticeira,

Nasceram três irmãos gémeos,

Um Padre, um Burro e uma Freira…

Nesse caso ó Tolentino,

Deixa o mano e

Vai para a mana,

Pois sabe doutra maneira.”

Risada geral.

Fui convocado de novo ao reitor, desta vez ele não foi tão brando, especialmente quando tive que recitar apenas para ele e para o Professor o último poema.

“Como sabe isto é um Colégio de Padres, como tal exigimos algum decoro, próxima expulsão e vai mais cedo para casa, sem acabar o período”

Deu-me ainda como pena complementar, uns dias sem me puder deslocar à cidade, a pedido do Professor, o homem tinha ficado traumatizado com o nosso anterior encontro no café.

Decididamente também não gostavam do Bocage.

 

P.S.: Desculpa José Maria, da minha parte faço um esforço enorme para te divulgar, mas estes incultos…   

publicado por McClaymore às 21:01
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Auto da Barca.

Não era uma aula qualquer, era a aula de português. Acabei de desenhar o submarino, de lhe colocar umas bolinhas no lugar do periscópio e escrever a legenda: “Submarino sem tampa”.

Escapei a tempo, o professor, gordo e anafado, entrava a suar pela sala. A turma mista, enchia o ar de risinhos idiotas ao comparar o meu desenho com a calvície do mestre acabado de sentar o seu enorme traseiro na cadeira, que chiava com o seu peso.

Quando se voltou para escrevinhar o resumo da aula no quadro, roborizou-se, enquanto apressadamente desfazia a minha obra de arte, espumando de raiva interiormente.

Estávamos a dar Gil Vicente, a vulgaridade da linguagem, compunha o quadro final. Afinal estávamos naquele idade em que tudo é possível. Depois dos “virgos postiços” e das “arcas com feitiços”, caí na tentação de olhar de lado para a minha colega de carteira, mais propriamente de soslaio para as mamas da Isabel, que debruçada sobre o livro, ainda as fazia mais enaltecidas. Em vez de se envergonhar, ou de se compor, tomou uma atitude ainda mais provocante, enquanto sorria matreira. A minha grande língua não se conteve, mais rápido que o meu pensamento e em coro com a leitura do Gil, ouvi a minha voz dizer: “Grandes mamas”. O professor, imponente, arrastou-se até mim e inquiriu-me:

“Disse o quê, Senhor Aluno?”

“Grandes mamas, foi o que eu disse Sr. Professor.”

“Penso que não é o que está escrito nesse trecho que estamos a ler. Ou terá o Sr. Aluno um Auto de Gil Vicente que eu não li?”

“Bem, com o Gil Vicente tudo é possível, mas na verdade eu estava a referir-me às mamas da Isabel.”

A turma desta vez não se conteve e rebentou num riso descontrolado.

“Pois o Sr. Aluno terá que se retirar e apreciar os dotes femininos fora desta aula. Quanto à Menina Isabel, componha-se.”

Teatralmente, apontou-me a porta, eu arrumei os meus pertences, e dignamente dirigi-me para a saída. Julgo que desconfiou que tinha sido eu, quem lhe tinha desenhado a caricatura.

Claro nesse dia fui chamado ao Reitor, homem austero e seco que me avisou tolerantemente que não deveria repetir a gracinha.

Mas, eu é que não descansei. Imaginei sempre qual seria a melhor vingança para limpar a minha honra ultrajada por aquela humilhante expulsão.

Como bons estudantes, nas tardes de sábado solarengas, aproveitávamos o facto de não haver aulas, para estacionar no café, para lanchar ou ver as moças da cidade de província, pavonear-se com o último grito da moda. Nesse fatídico dia eu vi o Professor, sentado a tomar o seu chá, acompanhado pela esposa, que em gordura era a fotocópia do marido, animado e baboso enquanto embalava o filho ao colo, e encontrei a solução. Fiz sinal aos meus companheiros e testemunhas, levantei-me, passei pela mesa do alvo da minha vingança e cumprimentei:

“Boa tarde Senhor Padre, lindo filho, parecido com o pai.”

No café apenas se ouvia a ventoinha do tecto e a surdina da loiça na cozinha.

O homem totalmente avermelhado, ainda tentou passar o rebento para as mãos da esposa que não compreendeu imediatamente o boato que começara. Ainda tentou tartamudear uma desculpa, de que não era padre, tarde demais, o silêncio foi apenas entrecortado pela porta que acabava de bater.

Os meus comparsas, ainda vinham lívidos, assombrados pelo meu sangue frio, encontraram-me num banco de jardim, eu ria-me a bandeiras despregadas, mas imaginando o inferno que seria o próximo Auto de Gil Vicente.

publicado por McClaymore às 18:26
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Heterónimo.

Levantou-se do túmulo, sacudiu as vestes dignamente e materializou-se na esplanada da “Brasileira”, cumprimentou a estátua que ocupava a cadeira do lado, muito parecida consigo, por sinal. Desembaciou os óculos com o guardanapo de papel que acompanhava o pastel de nata e a “bica” em chávena aquecida. Leu as notícias do jornal que o cliente anterior deixara descuidado em cima da cadeira. Voltou no outro dia, repetiu cada passo, cada gesto, mas desta vez precisou de pedir o jornal emprestado.

Incrédulo e de olhos abertos de espanto, caíram-lhe os óculos para a ponta do nariz.

Decididamente nada tinha mudado, as notícias já tinham ultrapassado o prazo de validade, os políticos continuavam iguais, o povo, incauto e cinzento, acreditava ainda com mais força nas mentiras que lhe iam impingindo dia a dia. Constatou apenas, que o preço do café, do pastel de nata e do jornal tinham aumentado e que havia uma nova religião chamada “futebol”.

Voltou para o seu eterno descanso, prometendo que se voltasse, viria acompanhado por um fulano chamado António Oliveira, mais conhecido por Salazar, só pelo prazer de lhe dar razão: continuava tudo como dantes.

publicado por McClaymore às 14:57
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Carta aberta ao Exmo. Sr. Presidente da República.

Começo por agradecer a V. Exa. a decisão difícil e importante que tomou. Efectivamente até porque nas semanas anteriores, já havíamos agradado aos Gregos, restava apenas como solução do problema que impedia o País de progredir, o de agradar aos Troianos.

Pela análise que fiz do seu discurso, ficam no entanto algumas dúvidas que eu gostaria de ver esclarecidas:

Porque era tão importante ouvir tanta gente? Para tomar a decisão que tomou bastava apenas, e pelos vistos foi o que fez, ouvir a sua consciência.

A única coisa boa no meio disto tudo, é que vamos ter a residência do 1º Ministro a mudar para o Kremlin, na 24 de Julho é claro, mas sempre passamos a ter despachos fora de horas e essa malfada avenida mais policiada.

Porque é que não diz ao País que já tinha combinado tudo com o Manuel? Sim porque para decidir aquilo que decidiu e pelos sorrisos do Manuel, já se saberia de antemão o resultado.

Isto da política é mesmo um exercício de cinismo, mesmo eu, cínico militante não conseguiria tão bons resultados:

Os rapazinhos do PP já não sabiam o que fazer, a crispação que criou na minoria do governo, vai acabar por dar os seus frutos, dificilmente nas próximas eleições eles conseguirão estar juntos na fotografia com o PSD.

Acabou com um possível adversário para algum notável do seu partido, nas futuras presidenciais. O Santana dificilmente neste exercício que se aproxima, terá tempo de se preparar ou retocar a imagem para ser considerado um perigo.

Quem se deve estar a rir um bocadinho com isto tudo devem ser o Mário Soares (pai), porque consegue que o filho apareça novamente nas capas das revistas e nas primeiras capas dos jornais como futuro chefe da claque rosa, e o Cavaco Silva agradecido ao Sr. Presidente e ao Sr. Presidente da União por o terem colocado outra vez na corrida a Belém.

O Ferro é que nunca lhe vai perdoar, mas isso na política é o que menos importa, não é verdade? Conseguiu afastar um líder que só se lá mantinha porque ninguém tinha coragem de lhe dizer que já devia ter deixado cair o Pedroso à muito tempo, a colagem com esse estigma era por demais evidente e o PS estava com a espada de Damocles sobre a cabeça, à custa de uma palavra que se chama lealdade e que na política não é para aí chamada.

Conseguiu ainda dividir a oposição e a coligação, ou o que resta dela, para além disso com as crises que para aí se advinham e pelos maus resultados que se aproximam quando chegar o tempo das novas legislativas, o PS, certamente terá pela primeira vez uma maioria confortável para desgovernar o País confortavelmente.

Os portugueses ficarão certamente a perder-se em contas e a perguntar quem é que ganhou afinal. A resposta é simples, meus amigos, ganhou a democracia.

Eu na verdade não sei quem é a senhora, todos falam dela, todos mamam nela mas nunca a vi. Deve ser uma senhora muito boa, dá emprego a uma data de pseudo engravatados bem falantes que se auto intitulam de políticos.

Aproveito ainda esta missiva, para solicitar um lugarzinho a V. Exa. na política, pode ser no partido de V. Exa., ou outro qualquer logo que me garanta a reforma em tempo recorde, junto envio o meu “curriculum”, como pode ver depois de o analisar, não sei fazer nada, cortei ainda algumas das habilitações, pois poderia ser recusado para o cargo por excesso das mesmas.

Sem outro assunto de momento,

Para o bem da Nação,

 

McClaymore

 

P.S.: Agradeço que V. Exa. esqueça o meu desabafo anterior e se concentre apenas no pedido feito nas últimas linhas.

publicado por McClaymore às 12:27
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Sexta-feira, 9 de Julho de 2004

As Valquírias.

Os cães uivavam ao longe pressentindo o perigo e avisando as suas gentes.</span>

No cimo do monte uns olhos manhosos, cintilantes e cheios de maldade, perscrutavam o vale em movimentos lentos e calculados. Lentamente foram-se juntando aquele, mais e mais, refulgindo na noite como archotes.

Cá em baixo na mansidão do vale, ainda fumegavam as ultimas brasas que durante a noite aqueceriam os sonos mal dormidos.

A coruja manteve-se calada, adivinhando nas trevas os movimentos lentos e o restolhar da matilha.

No ribeiro o barulho das rãs foi silenciado pelo chapinhar da sua fuga. Os juncos, moviam-se descompassados como se de um mar revolto se tratasse.

Avançavam em bom ritmo, mantendo a cabeça baixa e os corpos arqueados, escondidos na noite sem lua e nas nuvens negras que cobriam as suas sombras.

Uma flecha sibilina foi disparada, cortando a voz à sentinela, cujas mãos agarraram com desespero a trompa que os lábios sem ar não conseguiram tocar.

Aproximaram-se aos magotes das portas das casas, mal trancadas, trespassaram-nas como folhas de papel e irromperam pelos soalhos adentro. A turba em fúria, apunhalou, cortou e decepou, apenas se ouvindo os gritos horrendos dos que como foices calavam os que tentavam escapar.

Após minutos que pareciam séculos juntaram-se no meio da aldeia, arrastando consigo os despojos de mais uma matança.

Empilharam as cabeças dos que haviam perecido, alguns rostos ensanguentados mostravam no olhar vidrado e incrédulo um esgar de pura revolta.

- Mataram só os velhos, as crianças e as fêmeas? Onde colocaram os machos?

- Naquele canto, amarrados e vendados como ordenaste.

- Queimem as casas da aldeia, obriguem esses animais a andar rapidamente. O fumo vai atrair as atenções.

- Será como mandaste, Senhora. Não são poucos?

- A caçada terminou, temos escravos suficientes para nos cobrirem por um ano.

 

Para a Paula, conforme prometido. Espero que te sintas vingada.

publicado por McClaymore às 21:35
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Fado, Fátima e Figo… Nem sempre por esta ordem.

Há palavras começadas por “F” que pronunciamos com mais ligeireza.

Quanto ao futebol, exportamos durante séculos pessoal para as colónias, exploramos as costas do continente negro, roubamos e pilhamos pessoas, contratamos negreiros, vendemos escravos, misturamos tudo num caldeirão e conseguimos fazer dum país os maiores campeões desse desporto, mas nunca os conseguimos acompanhar, nem de longe, e o melhor que conseguimos foi num mundial, um terceiro lugar (por sinal no tempo desse senhor que não dizemos o nome), e das poucas vezes que nos classificamos para lá ir, ficamos logo pelo caminho nos primeiros jogos. Neste século até temos mais sorte como estávamos a ver que nunca mais lá conseguíamos ir, arranjamos um campeonato em casa só para os países nossos vizinhos, temos o lugar garantido na competição, mas ironia das ironias o treinador foi o treinador da equipa que ganhou o mundial. Aqueles que nos exportamos, voltam como produto importado, nem admira até já termos jogadores desse género nacionalizados, um gozo, aquela velha máxima se não podes com eles junta-te a eles, passa ser se não ganhas nada no futebol vai buscá-los para eles jogarem por ti. Dois produtos num só, estilo amaciador e champô na mesma embalagem, e com duas vantagens: primeira sempre temos mais algumas hipóteses de ganhar e se perdermos, porque nisso somos mesmo bons, temos sempre a quem culpar pelo insucesso e não precisamos de ferir assim o nosso já débil nacionalismo.

E para me dar mais razão ainda, já há alguém a propor o treinador para 1º Ministro, o lugar está vago, portanto é aproveitar. Já houve noutros países actores que foram presidentes e actrizes porno que foram deputadas, porque não um 1º Ministro treinador de futebol, nacionalizado claro. Para coadjuvar este treinador, na sua nova missão deveríamos ir buscar alguns dos melhores jogadores, principalmente aqueles que ganham mais, segundo palavras de um amigo meu da esquerda radical: “pelo menos tinham pena dos pobrezinhos e sempre fariam melhor figura que alguns ministros”.

 

P.S: Este post foi escrito antes do nosso honroso 2º lugar no Campeonato Europeu, no entanto não retiro uma linha ao que disse e ao que penso.

publicado por McClaymore às 18:00
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Quinta-feira, 8 de Julho de 2004

Para quem só gostou de vacas...e da paisagem.

Bem eu conheço a ilha e como podes calcular bem demais, dois anos e dois dias é muito tempo. Para além disso, conheço histórias pitorescas de açorianos e não açorianos, então de"coriscos mal-amanhados", ainda mais. Quando tiver um bocadinho de tempo conto-te mais algumas, para te aguçar o apetite vou contar apenas esta, e como não é original, pensei se o devia publicar no meu blog. Como sabes, aquilo é uma sociedade muito fechada, e não dizem mal deles no seu meio, mas esta foi-me contada por um amigo, uma pessoa que morreu à uns anos, muito novo, o nome era Henrique Álvares Cabral (descendente directo do dito descobridor), era a pessoa mais desbocada e divertida que eu conheço, um bocado difícil naquelas almas, mas enfim, lá vai a história, antes porém outro parêntesis só para contar que nós lá tratávamos o Mota Amaral, de seu nome completo João Bosco do Mota Amaral, carinhosamente de: S. João Bosco, mas continuemos...

“O Mota Amaral, saía todos os sábados de manhã para ir trabalhar no palácio do governo, quando era apenas Presidente do Governo Açoriano, por acaso situado na mesma rua onde ele habita, com a sua mãezinha. Tinha na altura um gabinete que ficava no 2º andar e para lá chegar tinha que se subir uma escadaria com imensos patamares. O Mota Amaral tinha ainda um amanuense, chamado João, obrigado a trabalhar aos sábados e que aproveitava quando ele entrava no gabinete, para dar uma escapadela até ao mercado para fazer compras do fim-de-semana. Normalmente o Mota Amaral nunca precisava dele, mas um dia havia um recado qualquer para dar e o Mota Amaral veio à procura do João. Como não o encontrava começou a chamar:

- Ó João, Ó João onde estás tu…

Na verdade o João acabava de entrar no edifício, vindo do mercado, e começava penosamente a subir aquela escadaria.

Em simultâneo com a chamada do Mota Amaral, o João estafado pela caminhada e pelo peso dos sacos, pousa-os e diz alto em desabafo:

- Ai meu Deus...

O Mota Amaral incrédulo e circunspecto responde:

- Eu já te disse ó João que na intimidade me podes tratar por Senhor Doutor.”


 

In memória de Henrique Álvares Cabral.

publicado por McClaymore às 17:27
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Terça-feira, 6 de Julho de 2004

O "Crítico".

Vestes negras, impecavelmente vincadas, uma camisa branca engomada, laço preto, ataviado e feito a rigor.

Jantava solitário na esplanada, acompanhado de um bife do lombo, mal passado, com uma só pitada de sal, regado por um Don Perignon à temperatura ideal, verificada matematicamente pelo termómetro que trazia no bolso, vertido num flute cristalino.

De repente saída do nada, sublime e implacável, apareceu a “Morte”. Tocou-lhe levemente no ombro esquerdo e gelou-lhe o coração.

- Com que então “Morte”, vieste para me levar?

- Sim “Crítico”, chegou finalmente a tua vez.

- Bem podias ter chegado antes, tinha evitado pagar a conta.

- Sempre a criticar, sempre a criticar, pelo menos não deste a gorjeta.

- Qual gorjeta? – replicou o “Crítico” – Com a falta de qualidade deste serviço, ainda me deviam pagar por ter vindo aqui jantar. E se por acaso não tivesse morrido, amanhã fazia uma crítica a este restaurante que pelo menos durante um mês deixariam de ter clientes. Já agora “Morte”, não te importas que eu leve a factura? É para meter no IRS.

- Para onde vais não precisas desses papéis, não tens que te preocupar mais com coisas mundanas.

- Nunca se sabe, nunca se sabe. A propósito “Morte”, podias ter vindo ter mais arranjadinha.

- Como?!?

- Pois essas vestes andrajosas, já estão um pouco “demodé”, as cores também não são as deste ano. E essa foice, podias ter mais cuidado com ela, está a ficar nitidamente enferrujada e gasta. Muito pouco profissional Sra. “Morte”, nem parece teu.

A “Morte” serena e prepotente indicou-lhe o caminho. Foi ouvindo o seu companheiro de viagem, ele criticava o tempo, ele criticava o percurso, ele criticou a “Morte”, quando esta parou numa farmácia de serviço para comprar um par de “Tampax”, para enfiar sorrateiramente nos ouvidos.

- Por onde me levas, já estou farto de andar, se tivesses virado à esquerda, já lá estávamos.

Mesmo com os tampões, a “Morte”, estava nitidamente a perder a compostura, a voz do “Crítico”, conseguia perfurar qualquer protecção conhecida, e a célebre "paciência" da "Morte", estava rapidamente a esgotar-se.

Finalmente, já sem forças para ouvir o seu interlocutor, chegaram ao seu destino.

A morte bateu três vezes e passado um bom bocado veio um diabo, feio, encornado e corcunda abrir a porta. Não sem que antes o “Crítico”, viperino, não tivesse reclamado pela demora e pela falta da campainha.

- Boa noite, disse o diabrete, quem trazes aí ó “Morte”?

- Desculpa não percebi, deixa-me tirar os “Tampax” dos ouvidos – disse a morte – importaste de repetir a pergunta?

- Eu perguntava quem é que trazias?

- É o “Crítico”, posso ir-me embora, estou um bocado atrasada para outro encontro, e com a pressa esqueci-me de comprar aspirinas, estou mesmo a precisar delas.

- Já agora – exclamou o “Crítico” – porque é que não perguntam pela família, pelo canário, porque é que não…

- Cala-te – disseram a “Morte” e o diabo em uníssono.

- Já sabes “Morte”, procedimentos da casa, tenho que ir buscar o rol dos pecados desse senhor e tens que ficar até ao final da sentença.

- Vejam lá se ainda tenho que tirar a senha e ir eu à procura do meu processo…

Os olhares furibundos que a “Morte” e o diabo lhe lançaram, foram suficientes para o “Crítico”, ficar calado durante uns minutos.

O diabrete, requebrado pelo peso do processo, ia caindo e espalhando no chão os volumes dos pecados do “Crítico”, após um esforço colossal lá conseguiu um espaço para os pousar.

- “Morte”, é melhor sentares-te um bocadinho, isto ainda vai demorar. E tu, “Crítico” não procures nenhuma cadeira, porque tens que ouvir aquilo que tenho para te dizer, em pé. Vamos então lá a começar: Primeira crítica, começaste logo pelo local, a hora, a data, o signo em que nasceste. Extraordinário. Já estava na massa do sangue. Depois com a hora da mamada, depois com o lado da mama. Coitada da senhora tua mãe…

- Porquê é que a minha mãe é para aqui chamada? – inquiriu o “Crítico” com as sobrancelhas arqueadas.

- Pois à tua custa, replicou o diabo, está no Purgatório.

- E então? Eu não vim para o Inferno.

- Pois, mas a tua mãe quando nasceste, lembraste, viu o monstro que estava em ti e tentou afogar-te?

- E depois?

- Depois, se não se tivesse arrependido, não tinha ido para o Purgatório, suspirou o diabo. Tinha ido directamente para o Céu…   

P.S.: Esta fábula é dedicada em exclusivo ao WOW. E como sabem, procedimentos da casa, existe livro de reclamações (É favor preencher os campos convenientemente para serem aceites)

publicado por McClaymore às 12:51
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Sábado, 3 de Julho de 2004

O Anjo.

O negrume da noite rebentava, as ultimas luzes reflectidas no cimo dos ramos das árvores, aumentava o aspecto fantasmagórico à sua volta, à medida que a floresta se tornava mais densa e agrupada. O lusco-fusco confundia a mente, entrevava a vista e aumentava o medo.

Lá ao longe um brilho, naquele imenso escuro. Tentou às apalpadelas encontrar um atalho que o levasse até aquela luz intermitente e gasta.

Percorria trilhos que os seus olhos mal conseguiam adivinhar, os ramos baixos dos arbustos feriam o seu débil corpo como chicotes. As suas roupas ficavam rasgadas nas pontas mais afiadas dos espinhos que lhe dificultavam o caminho. Batia em troncos e pedras caídos que nunca lá deveriam ter estado.

Parava um pouco para tomar fôlego e continuava teimosamente na senda daquela estrela que o mantinha vivo.

Aproximou-se a medo da luz, sentiu um calafrio a percorrer-lhe a espinha, um calor extremo sacudiu-lhe os membros entorpecidos pelo cansaço. Ouviu uma voz grave e cavernosa que lhe perguntou:

- És tu meu filho?

- Não, sou eu…

- Ah! És tu, estava há muito tempo à tua espera, explicas-me mais tarde o teu atraso.

Abriram-se umas portas negras, enormes e ruidosas, saíram chamas de tições e gritos alterosos, o anjo, já sem asas, retirou a ultima pena que teimosamente se mantinha nas suas costas e entrou…

O que ele nunca contou e nunca iria contar ao seu guardião é que no seu penoso caminho, tinha encontrado um vulto moribundo e lhe tinha dado as suas asas, que esse vulto de alma negra e atormentada, quando lhas colocou, se transformou, que certamente percorreu o caminho inverso ao dele, indo até aos limites daquela floresta tenebrosa e que por fim seguiu a luz do sol que se punha no horizonte.

E o anjo entrou, a sorrir...

publicado por McClaymore às 22:58
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Sombras do passado.

O menino encaixado nas escadas de pedra, olhava sobre a ruela, entremeada pelos muros das casas e do vinhedo, verde, muito verde, onde despontava o princípio do verão. Ouvia-se dentro da casa o matraquear manso dos sapatos da tia Alzira, atarefada nas lides de mais um dia passado. O sol a declinar lentamente, arrastava as suas sombras, por entre os beirais do telhado e os buracos do passadiço em madeira que atravessava a ruela. Lá ao longe nalguma igreja distante, já batiam as novenas ressoando intermitentes com o calor do fim de tarde. Vinda do fundo da ruela, apareceu a Carmelinda, carnes secas, nariz adunco e rosto talhado por um sofrimento calado, olhos escuros e brilhantes como noites de lua cheia, roupas cinzas e descoloridas de uma viuvez precoce.

Quando passou junto as escadas, o cuco, esse malandro, cantou, a tia Alzira espreitou pela porta escancarada ao cimo das escadas e ouviu a voz inocente do menino a dizer para a Carmelinda:

“- Pareces mesmo a mulher do cuco…”

A Carmelinda com uma expressão de terror no rosto, de espanto e agravo suplicou:

“- O menino não me chame isso, nunca me chame isso por favor.”

Tarde demais, a tia Alzira, junto à porta, num intervalo dos afazeres domésticos, ouviu, o tio Manuel, enxada ao ombro, que atravessava o passadiço vindo do lameiro, ouviu. No outro dia, nas semanas seguintes, não se falava de outra coisa, até o padre da aldeia comentava, a Carmelinda era a “mulher do cuco”.

O menino nunca compreendeu porque é que a partir daí a Carmelinda o evitava, porque é que quando o via se esgueirava sempre sem o encarar.

Um dia, o menino, já homem feito, descobriu que em alguns locais a “mulher do cuco”, é a bruxa da aldeia, significado que se perde na negrura dos tempos em que o homem ainda adorava as forças da natureza.

A Carmelinda, essa, ficou sempre a “mulher do cuco” até morrer, o menino nunca se perdoou, e há-de sempre, até ao fim da vida, ouvir a súplica da Carmelinda às palavras inocentes que proferiu naquele fim de tarde.

publicado por McClaymore às 18:56
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Marketing.

Eu não queria num dos meus desabafos anteriores ofender ninguém ligado a esse desporto que se chama “marketing”. É um desporto sim, mas é um desporto mental só para alguns iluminados.

Tudo e todos o fazem: políticos, religiosos, pintores, até o comum dos mortais, mesmo nós míseros e inocentes bloguistas o fazemos. Temos é depois aí uns quantos que publicam uns livros dos “post” que nos andaram a impingir durante uns tempos, oxalá tenham a modéstia de não publicarem os comentários.

Um dos melhores utilizadores dessa ciência foi sem dúvida um dos maiores pintores contemporâneos: Salvador Dali. Numa das suas ultimas entrevistas que deu, ao Der Spiegel, quando lhe fizeram a pergunta de como é que ele se comparava com Pablo Picasso, ele respondeu:

“O Picasso é espanhol, eu também.”

“O Picasso é um génio, eu também.”

“O Picasso é comunista, eu também não.”

O André Jute, escritor de policiais, bastante elogiado pelo mestre do género Jonh Le Carré, numa das suas obras, “Negativo Inverso”, utiliza no princípio de um dos capítulos do seu livro, uma das melhores alegorias que conheço, só comparadas às fábulas de Jean de La Fontaine, e escritas por um homem da publicidade:

“A libélula pousada no focinho do hipopótamo sugeriu ao seu anfitrião que aprendesse a voar e instruiu-o agitando as asas.

- Como posso fazê-lo? – perguntou o hipopótamo.

- Indiquei-te as linhas gerais da ideia – replicou a libélula – suponho que és capaz de conceber os pormenores do funcionamento.”

In Estratégia na Publicidade, by Leo Bogart.

Depois deste desagravo penso que fiz as pazes com o pessoal do “marketing”, tendo em conta de que nem sempre uma boa ideia resulta num bom anúncio ou no nosso caso, de que um bom “post” resulte num bom “blog”.

publicado por McClaymore às 12:00
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Sexta-feira, 2 de Julho de 2004

Cromos.

Todos têm tido dias felizes, o gato que lambe descaradamente as patas depois de uma pequena incursão ao quintal da vizinha, onde afoitamente experimentou apanhar um pombo, ainda resmungante no beiral da janela do lado.

A criada que apanha cada peça de roupa com um cuidado aparente, mas a suspirar pelo namorado, que ao cair da noite, quando a vier trazer a casa, lhe meterá a mão atrevida entre as pernas, tentado enquanto a beija tirar um pouco de prazer do seu corpo robusto e arqueado pelo desejo.

A vizinha descuidada com as alças da combinação soltas dos ombros deixando antever uns seios debruçados e bem feitos, depois de uma despedida matinal.

A filha da vizinha com os seus olhos redondos, trança negra, mini-saia de ganga, que ao subir as escadas mostram o fio dental rosa choque que ela vestiu descuidadamente para impressionar o vizinho do terceiro esquerdo, que arfava nos seus vinte e cinco anos, a subir as escadas atrás dela, sempre atrás dela, três degraus abaixo, para não perder o espectáculo.

O senhor do café, o Sr. António que demorava uma eternidade a embrulhar os queques que lhe pediam, como se estivesse a vender um filho acabado de conhecer. Olha que o homem até irritava, o queque era meu, e ele a fazer de conta que não via o dinheiro em cima do balcão, enquanto arranjava voltas e mais voltas no embrulho. Depois vinha a pergunta crucial: mais alguma coisa, e ficava a mirar o embrulho que lhe escapava das mãos como se fosse a ultima vez que o visse.

A instituição do bairro é o barbeiro, pequenino, olhos verdes, sagazes, malandrecos, de uma vida cheia de vigor. É surdo-mudo o que confere à sua barbearia um autentico oásis no meio de um deserto de vozes e sons dos autocarros rocinantes e poluentes.

Nesta barbearia de bairro, não se discute futebol, acidentes ou política, vai-se lá só para cortar o cabelo, geralmente à moda antiga, curto mas fácil de pentear, onde apenas as moscas se ouvem e o restolhar das folhas das revistas ou do jornal, que ele prazenteiramente mete nas mãos do cliente quando eles transpõem o degrau da soleira. Alguns dos clientes adormecem no corte, tal a placidez do lugar. De vez enquanto ele tenta encetar uma conversa, por gestos é claro, que se traduzem muitas das vezes num equívoco tremendo. A última vez que tentei comunicar com ele fiz um gesto que me valeu uma aparadela à escovinha, deixei a partir daí a que fosse ele a decidir o corte ideal, não que ele tivesse muitos por onde escolher, mas sempre evitava que me olhassem na rua como se acabasse de entrar na tropa, e a partir deste equivoco, tentativas de conversa nada. O ritual é sempre o mesmo, bate nos ombros do cliente, revira as golas da camisa para dentro, porque sair do barbeiro com aqueles pelos irritantes a morder o pescoço, é das experiências mais torturantes que conheço, coloca então um pano de algodão que sacode ferozmente uma vez e outra, depois um avental, num tecido escorregadio e apertado, começa a cortar, primeiro com aquela tesoura com dentes, cortes duros e precisos, uma borrifadela no cabelo, um bocado de água nas patilhas, um retoque de artista com a navalha, mais uma batida nos ombros, o descambar da cadeira, mais uma escovadela rápida e o freguês que se segue. Este ritual é ligeiramente alterado quando passa algum “avião” no passeio da frente. A intuição diz-me que ele está a cortar dum lado, mas a obrigar-me a virar a cabeça para outro, no final um torcicolo e a visão de uma boazona ao longe, geralmente desfocada pela dor, e um sorriso de barbeiro com a missão cumprida.

Descer a rua, passeio antigo, pedra granítica fria, aquecida pelos raios de sol matinais, sacudindo ainda os cabelos que se tinham entranhado nos ouvidos e no nariz.

</span>Reparar na trintona loira, que se desloca à minha frente, muito tempo passam as mulheres no cabeleireiro a pintar, a cortar e a arranjar o cabelo, um autêntico desastre, estragam o cabelo e as carteiras do marido. Nesta tinham abusado da água oxigenada, mas o quadro geral visto de trás não era mau de todo e o traseiro bem feito e ondulante ajudava a compor a coisa, ela como sabia o efeito que causava no macho que lhe seguia no encalço, ainda realçava mais no andar o que tinha de bom.

Apetecia às vezes mandar uns piropos mas como nunca tive jeito para essas coisas, limitei-me a ultrapassa-la enquanto ela via na montra da farmácia o efeito que fazia ao pobre coitado que teve o azar de a seguir mais de cinco metros. Ficou a sorrir, para os produtos de beleza que dentro dos próximos anos iria gastar para manter aquela pele sem rugas e a pensar na plástica que teria que cravar quando chegasse aos quarenta e cinco para manter as formas que as gajas mostravam nos anúncios dos cremes. Entrou, devia ir buscar umas aspirinas, as desculpas de dor de cabeça nos últimos dias tinham que acabar em casa, o marido já andava desconfiado de tanta dor de cabeça e de manhã já passava demasiadas vezes as mãos pela testa a ver se estavam a crescer algumas protuberâncias ósseas, ou então, a loira conhecia o farmacêutico, rapaz muito gentil, bigodinho à Clarck Gable, mais para o cheiinho, mesmo assim uma gracinha, não fosse usar capachinho.

publicado por McClaymore às 21:45
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Quinta-feira, 1 de Julho de 2004

Putilika, conjecturas marginais. Agradecimentos.

Em primeiro lugar tenho que agradecer ao nosso ex-1º Ministro e actual Presidente da União Europeia por ter seguido os meus sábios conselhos e ter pago ao árbitro do Portugal-Holanda, dou-lhe ainda os meus parabéns porque se adiantou aos meus pensamentos e já previu o próximo resultado, segundo as suas afirmações Portugal vai ser campeão europeu. Lamento é que não tenha dito é do quê. Agradecimentos ainda ao nosso Presidente da República pela rapidez com está para decidir se há ou não eleições antecipadas, não é que eu vá votar, mas começo a ficar preocupado, a continuar assim a Dra. Manuela Ferreira Leite ainda consegue ficar com o cargo por usucapião.

publicado por McClaymore às 23:37
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Blogando… outra vez.

Estou a ficar é pior que o Prof. Marcelo, juro que não recebo os honorários dele por fazer anúncios, até porque neste universo é estritamente proibido, mas têm que me desculpar, para além da Paula, que continua a escrever palavras que nos tocam, acrescentei mais uns locais que vale a pena lá ir, a Inconformada: irreverente q.b., e por fim a Lique: será que tem mesmo a idade que ela diz, o seu espírito é o de uma jovem poeta, mas que está à nossa frente anos-luz.

Portanto meus amigos, mais uma vez, bloguemos…

publicado por McClaymore às 23:03
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"The game is won when one king is in check and cannot avoid capture on the next move; this is called checkmate…"

“A melhor jogada em xadrez é sempre a mais rápida para ganhar a partida.”

Quem inventou esta frase devia estar a chefiar um obscuro departamento de marketing de uma obscura empresa nos confins do universo.

Obviamente nunca jogou xadrez ou se jogou nunca ganhou nenhuma partida e nunca lhe disseram que um gambito de dama, mais conhecido por cheque pastor, só resulta nas seguintes circunstâncias:

a) O adversário é um débil mental.

b) Aprendeu a jogar xadrez ontem.

c) Quer deixá-lo ganhar.

d) É a mistura das alíneas anteriores.

Isto faz-me sempre lembrar um estudo de psicologia comportamental em que se utilizaram dois macacos, para aferir do seu grau de inteligência. Ensinaram a esses dois macacos um jogo, postos frente a frente, aquele que ganhasse, tinha como recompensa uma banana. O espantoso é que o macaco considerado mais inteligente, descobriu que para manter o outro em jogo tinha que o deixar ganhar pelo menos um em cada quatro jogos, se o outro não ganhasse de vez em quando, desistia de jogar e não haveria bananas para ninguém. Claro que não os ensinaram a jogar xadrez.

Deveria também saber este pseudo-xadrezista que só se consegue ganhar uma vez contra o mesmo adversário utilizando esta estratégia. Já pensou em desviar a sua atenção para as damas? Jogam-se na perpendicular, às vezes na horizontal e dão menos trabalho intelectual.

A frase mais célebre que se conheçe pertence a um dos melhores xadrezistas e promotores da sua imagem que existiu, o nome dele é Bobby Fisher e definiu o xadrez num pequeno parágrafo: “Chess is nothing more than mental masturbation”, mas mesmo este dava mais atenção ao meio do jogo e ao final. Aberturas fáceis e rápidas só conheço as dos enlatados e mesmo assim quando não encravam ou partem em algum lado, deixando-nos literalmente entalados (dixit).

publicado por McClaymore às 17:14
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