Terça-feira, 28 de Junho de 2005

O Provedor dos Leitores (2ª intervenção)

Recebemos uma carta bastante interessante assinada por um nosso leitor que se intitula de MMC:

 

“Exmo. Sr.,

…lamento indubitavelmente o facto de V. Exa. nunca fazer referência aos meus dotes neste blog.”

 

Resposta do Provedor:

 

“Desde que o vi a atravessar a Av. da República, em direcção à Versalles com uma mochila Louis Vuitton à tiracolo, fiquei em dúvidas de todas as suas capacidades. O seu gosto por camisas cor de rosa também não ajuda convenhamos, nem o seu ar de pura afectação.

Para além disso após aquele casamento barbaramente pago, pelas revistas cor de rosa, levam-me a concluir que você está como aquela actriz que quer confundir esta redacção com a da revista Maria.

Eu já lhe disse que não publicamos fotos de quem não gostamos, muito menos contribuímos para campanhas de marketing de gosto duvidoso.

Aconselhamos a prolongar o seu período de reflexão para além das eleições autárquicas. E para além disso com o mulherão que tem em casa o melhor é começar mesmo a dar-lhe mais atenção.

Por favor deixe de insistir no facto de ter andado no mesmo colégio do McClaymore, ele fica um bocadinho incomodado pelo facto e gostaria de ver essa parte da sua vida riscada da sua biografia (da dele).”   

 

Notas do Provedor:

 

Aceito notas de Euro de qualquer valor, tenho um carinho especial por molhos cintados, bem chorudos e compactos. Aqui a corrupção não tem cabimento. Não prometo nada, mas esses “molhinhos” podem ajudar, podem ser dos mesmos que enviou à Bárbara para pagar uns programazitos que você lhe encomendou quando era Ministro da Cultura.

 

Notas do McClaymore:

 

Eu despedia este tipo, mas fui ameaçado de que se o fizesse, me obrigavam a ver durante dois dias seguidos o filme da campanha do MMC, para além disso depois de terem destituído o Edson Athayde das funções que lhe tinham sido confiadas, não ponho quaisquer objecções às indirectas do gajo lá de cima. Quanto às fotografias só publico as da Bárbara.

publicado por McClaymore às 16:43
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É tudo uma questão de semântica…

Quando me apercebi que a onda rosa se ia instalar neste País, com a sua petulância arrogante, limitei-me a comentar com um amigo:

 

“A nossa sorte é que ao contrário do que aconteceu anteriormente, quando os governos do PS ganham, o finado governo do PSD, não deixou nenhum dinheiro para gastar.”

 

Retiro o que disse, depois de ler o “Deficiente Orçamento Rectificativo”, julgo que afinal o Santana Lopes poupou mais do que devia.

 

E continuo a achar que o papel do Presidente da República, devia ser bem menos benévolo do que está a ser, deve-nos isso.

 

Este governo ainda não compreendeu uma coisa: ninguém está contra a tomada de medidas, mesmo drásticas, apenas precisamos que nãos nos continuem a tratar como “deficientes”, e que nos expliquem como e quais as medidas que vão tomar em definitivo.

 

Mais, chamem as coisas pelos nomes, dizer que uns erros crassos são umas deficiências, é insultar quem não se pode defender.

 

Agradecemos que assumam as vossas próprias limitações e por favor não continuem a achar que debaixo desta capa de benigna candura, não temos direito à revolta.

publicado por McClaymore às 15:38
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O Provedor dos Leitores

Esta coluna, fica à disposição dos leitores que se sintam ofendidos pelo matraquear silencioso do McClaymore, será um local de reflexão sobre a interpretação de algumas palavras menos conseguidas, servirá de moderador entre os leitores mais persistentes e as convicções políticas e sempre polémicas do autor do blog.

 

Destina-se ainda a responder às cartas dos nossos leitores, que mesmo sendo remetidas na capa do anonimato, serão lidas, transcritos os trechos mais relevantes e dadas as explicações necessárias.

 

Recebemos uma crítica profunda de um leitor assíduo, que assinou como JS, ao princípio, julgamos tratar-se do nosso Primeiro Ministro, mas como vinha com a tarjeta dos correios do Rato, ficaram as nossas dúvidas por resolver:

 

“Caro Sr. Provedor,

Li com atenção o vosso post, em que utilizavam repetidamente a palavra embuste. Caso não tenham reparado é um termo que dignifica apenas as campanhas extraordinárias que são feitas em prole e do exacerbo da Nação. Como tal agradecemos a parcimónia da sua utilização.”

  

Resposta do provedor:

 

“Caríssimo JS, a utilização do termo tem direitos de autor, foi usada veemente pelo Exmo. Sr. Presidente da República, eu sei que é fácil utilizar a onda e continuar a insistir na mesma tecla, no entanto peça urgentemente aos seus assessores para mudarem um bocadinho o seu discurso, começa a ser chato e os portugueses já lhe tiraram as medidas. Para além disso só era admitido a um político, a repetição dos mesmos discursos passados 20 anos, infelizmente já morreu, veria que tinha muita coisa a aprender com ele.”

 

A segunda é dum leitor que se identifica como JC:

 

“Sr. Provedor,

Quero notificá-lo que nunca utilizei a palavra “embustou”, em qualquer dos meus discursos ou comícios. Agradeço que rectifique as suas palavras senão os portugueses ainda “ádem” saber das suas malévolas intenções.”

 

Resposta do Provedor:

 

“Meu amigo, continua a dar as suas calinadas em português, as do McClaymore são apenas fruto do acaso. Reconheço que ele utilizou mal a palavra “embustou”, o que ele queria mesmo dizer é que o Primeiro Ministro “embestou” os portugueses. Apenas mais uma critica, quando atacar os outros comentadores, mesmo que desportivos, reveja-se na triste figura que faz na Quadratura do Circulo, e reconheça que sua apetência era mesmo o de ser árbitro de futebol.”

 

A terceira carta vem identificada, mas com o pedido expresso para não ser revelada a identidade da autora:

 

“Exmo. Sr.,

Vou casar grávida e vou viver para Madrid, agradeço que não continue com os ataques à minha vida pessoal.”

 

Resposta do Provedor:

 

“ Minha cara Senhora, a vida pessoal de cada um, diz apenas respeito ao próprio. Case com quem quiser e no estado que quiser. Emigre para onde quiser, continue a fazer o teatro que quiser, mas por favor, deixe de enviar cartas a pensar que esta redacção é a da revista Maria.”

 

A última carta veio de um autor que se identifica apenas como “Banca”:

 

“Sr. Provedor,

Agradecemos que seja corrigido o post, onde referencia que fazemos anúncios de actrizes e porcos mealheiros a fazer nudismo.”

 

Resposta do Provedor:

 

“Lamento profundamente que as palavras do McClaymore tenham dado azo a tão extensa confusão, ele efectivamente esqueceu-se da vírgula. Apenas e apenas se queria referir aos porquinhos mealheiros, claro que depois de meia hora de extensa e acesa discussão, ele admitiu que o que ele queria mesmo era ver as “miúdas dos anúncios a fazer os spots, apenas com a roupinha com que vieram ao mundo”, admite também que passava logo a subscrever todas as porcarias que vocês promovem, desde faqueiros até copos de cristal. Ficam as minhas sinceras desculpas e as correcções serão feitas logo que possível.”

 

Notas do Provedor:

 

Não vai servir para nada, eventualmente continuar esta coluna. O seu perene desaparecimento, deverá ser preenchido por outra personagem, que acompanhe e equilibre o parecer tendencioso do blog. Convidamos o António Vitorino que humildemente recusou, porque vai assumir as suas novas funções de “contraditório” ao comentador Marcelo Rebelo de Sousa.

 

Notas do McClaymore:

 

Se este gajo continua assim, pior que um censor do antigo regime, ainda o despeço por justa causa. Lamento profundamente que o tenham que aturar, mas por motivos de força maior, e porque foi instituída a Santa Inquisição, tenho que o manter, até mudarem de governo.

publicado por McClaymore às 12:33
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Quinta-feira, 23 de Junho de 2005

Embustes.

Embuste I

 

A Sofia Alves foi “ameaçada por uma senhora” que se levasse ao palco a peça onde é protagonista, ainda lhe ia “acontecer alguma coisa…”

Parabéns Sofia Alves, a campanha publicitária para a estreia da sua peça foi mesmo muito boa…

Quanto é que pagaram à senhora das ameaças? Ou a “senhora nunca existiu”?

Pelo menos vai conseguir que a plateia encha mais um bocadinho, mais os polícias que lhe vão fazer a segurança, esses estão garantidos...

O pessoal do marketing anda mesmo a esforçar-se…

 

 

Embuste II

 

O Presidente da República acusou a banca portuguesa de “embuste”.

Grande admiração, um sector que domina o capital e as companhias de seguro, alguma vez poderá ser acusado de “embuste”?

 

 

Embuste III

 

O Presidente da República, numa fábrica de chapéus, deu a mão à palmatória e rectificou o significado da palavra “embuste”.

Afinal o que ele queria dizer é que a banca não arrisca…

Bem, afinal para quê?

Um sector que tem cerca de 40% de lucro a vender a imagem de actrizes e porquinhos mealheiros a fazer nudismo, porque tem que arriscar?

O lucro que tiram a fazer spots publicitários e sem sair do lugar já não é suficiente?

Estão mesmo a ver os rapazinhos a investir no “capital de risco”? Então não queriam mais nada?

“É já a seguir, é que é já a seguir…”

 

 

Embuste IV

 

O Jorge Coelho conseguiu transformar um programa de grande nível, Quadratura do Circulo, num grande “circo”.

Os dotes dele são de sobeja conhecidos:

“A única coisinha sem importância, em que o Primeiro Ministro “embustou” o País, foi no aumento do IVA…”

Aconselho vivamente, que ele leia as entrevistas do Primeiro Ministro antes de nos brindar com essas baboseiras todas.

 

 

Embuste V

 

O Gabinete de Imprensa da Assembleia da República, inaugurou uma linha directa para atender reclamações:

 

“Agradecemos o seu contacto, marque o número no seu telefone que mais lhe convier…”

 

“Se quiser saber o ordenado e as reformas dos políticos, marque 1, a sua chamada ficará em espera durante as próximas semanas…”

 

“Se pretender as razões que levaram o Presidente da República a mandar o Governo do Santana Lopes para a rua, marque 2, a sua chamada será de imediato reencaminhada directamente para o telemóvel do Dr. Jorge Sampaio. Caso a sua chamada demore mais de 3 meses a ser atendida, aconselhamos a ligar directamente para a sede do PS, no Largo do Rato.”

 

“Se pretender saber as razões porque este governo ainda se mantém em exercício, marque 2009, esperará exactamente o tempo necessário para que haja novas eleições. Aconselhamos ainda que para a outra vez se não quiser fazer figura de parvo, que veja bem onde põe a cruzinha.”

 

“Caso ainda insista em utilizar a opção anterior, desligue marque 4 e vá tentando até às próximas eleições presidências. Acompanhe o seu telefonema por algumas preces ao Santo Cavaco Silva e espere um milagre para ser atendido…”

 

“O custo por minuto será calculado baseado no pró ratio, relativo às suas declarações fiscais, em caso de dúvidas, utilizaremos as informações das suas contas bancárias para calcular a taxa que lhe iremos cobrar.

A taxa cobrada reverterá para a ANPE (Associação Nacional dos Políticos Empobrecidos), e será aplicada em fundos para a complementaridade das reformas dos mesmos.”

 

“Obrigado por contribuir…”

publicado por McClaymore às 14:37
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Quarta-feira, 15 de Junho de 2005

Até sempre camaradas…

Não tenho um amor especial por ideologias que usurpam as vontades e as iniciativas dos outros ao abrigo de uma repartição de benesses que para alguns, mesmo com as oportunidades que lhes dão, não as querem agarrar…

Nas mentes desses eu sou um perigoso reaccionário, sempre fui, nunca escondi que para mim a equitatividade, é a repartição de trabalho, não de riqueza, ao contrário do que muitos defendem.

Por essas e por outras é que nunca acreditei em comunismos nem em pseudo partidos cuja finalidade era dar aos pobres, de espírito, aquilo que eles não conseguiam roubar de outra maneira.

A colectivização cheira-me a desajustes de libido ou de problemas de consciência mal resolvidos. A homogeneidade gregária tem como contraponto os direitos individuais de cada um, pelo que os partidos que defendem o comunismo, entram em contradição quando se arrogam os únicos defensores de uma liberdade que nunca abdicarão de controlar.

Vimos isso acontecer neste País, a tentativa de arrebanhar todos os direitos dos cidadãos e infelizmente continua.

Em 1975, num frente a frente entre o Dr. Mário Soares e o Dr. Álvaro Cunhal, defendia o ultimo que o PPD do Dr. Sá Carneiro, não podia estar representado no Governo. Enquanto que o Dr. Mário Soares contrapunha que sendo esse partido ainda mais votado do que o do Dr. Álvaro Cunhal, como seria possível exclui-lo da sua representatividade.

Dois dos defensores do paradigmático caminho para o socialismo deixaram-nos: o General Vasco Gonçalves e o Dr. Álvaro Cunhal.

Cada um deles à sua maneira defendia aquilo em que acreditava. Não é sem razão que o Dr. Marcelo Caetano elogiava o Dr. Álvaro Cunhal considerando-o o único político coerente deste País.

Nunca privei com o Dr. Álvaro Cunhal e apenas tenho na memória um episódio que ainda hoje me faz rir.

Princípios de 90, um dia daqueles que apetece que comece de novo. Tudo estava correr mal. Desde o colega a avisar que estava doente e que não poderia acompanhar-me à auditoria, até ao taxista que não sabia as ruas de Lisboa. Decididamente deveria ter ficado em casa também. Para cúmulo, a empresa era uma comparticipada da multinacional para quem eu trabalhava e tinha-se mudado para um edifício ainda em acabamentos.

A rua ainda poeirenta, começava num largo e nem se via vivalma. Deixei o taxista atarantado, a resmungar pela falta de gorjeta, e saí apressado, a contar os minutos de atraso. Olhei para o post-it que a minha secretária me tinha escrito e meio confuso dirigi-me para uma porta envidraçada de onde alguns vultos se aproximavam para sair.

Ao primeiro que apanhei, mesmo à entrada, soletrei as letras escritas no amarelo e perguntei ansioso:

“- Boa tarde, por acaso não sabe dizer-me onde fica o Edifício América?”

A figura cinicamente sorridente, respondeu:

“- Infelizmente não lhe posso dar essa informação…”

Depois fui literalmente afastado do senhor, por dois gorilas de má cara, não liguei, o meu relógio indicava que já passava nitidamente da hora…

Fui percorrendo a galeria e encontrei o maldito edifício, as letras douradas sobre a porta não enganavam ninguém.

Enquanto o segurança me preenchia um papelito de entrada, fez-se luz! E comecei a rir-me desalmadamente: tinha à minutos atrás, perguntado ao Álvaro Cunhal, em carne e osso, onde ficava “o Edifício América”. Daí o sorriso cínico e a pressa dos gorilas em afastar-me. Depois deste encontro, deveria ter mesmo anulado a maldita auditoria, Deus tinha-me enviado um sinal…

 

 


In memória dos que lutam por aquilo em que acreditam.

publicado por McClaymore às 15:12
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Terça-feira, 7 de Junho de 2005

É tudo uma questão de pulítica...

A crispação dos portugueses só é mesmo atenuada, pela toada constante de anedotas, uma das melhores que conheço é referente à política e esta, perdoem o plágio e os sacros ouvidos de alguns leitores, é bem velhinha, mas sempre actual e não poderei deixar de a colocar aqui:

 

“Certo dia, foi solicitado a um miúdo uma dissertação sobre “política”, traduzindo para a linguagem actual, um TPC (trabalho para casa). Confrontado com este invulgar pedido por parte do professor, pediu os bons favores do pai, homem esclarecido e sempre bem informado...

O pai pacientemente foi explicando ao filho:

-Bem na política temos o Governo, que como exemplo, aqui em casa pode ser a tua mãe, porque é ela que administra isto tudo. Eu posso ser o Capital, sou eu que trago dinheiro para casa…A Maria, a ama do teu irmãozinho pode ser a Classe Trabalhadora. Tu és o Povo e o teu irmão pequeno, é onde nós todos depositamos esperanças, portanto pode ser o Futuro da Nação…

-Pai agradeço imenso a tua explicação, mas ainda não compreendi nada de política.

-Olha meu filho, está na hora de te deitares, amanhã podemos falar melhor sobre o assunto.

Decorria a noite sem sobressaltos quando o nosso herói foi acordado pelo choro insistente do irmão mais novo.

Estremunhado, entrou no quarto do irmão, o cheiro que este exalava, não deixava muitas dúvidas sobre os queixumes do miúdo.

Ainda mal refeito daquele acordar intempestivo dirigiu-se para o quarto dos pais onde encontrou a mãe, sozinha e os ecos de um ressonar despreocupado.

Sem solução dirigiu-se para o quarto da ama do irmão. Aí encontrou um quadro que o deixou muito incomodado, o pai e a ama em altas cavalarias enrolados nos lençóis. De fininho sem se mostrar, reflectiu sobre a atitude a tomar e depois de uns minutos, decidiu-se a ir de novo para a sua cama.

Acordou, na sala já se tomava o pequeno almoço, o pai, como havia prometido, voltou à carga:

-Bem meu filho podemos outra vez falar sobre a Política?

-Já não é preciso pai. Ontem à noite tive um sonho que me deu a solução sobre aquilo que eu queria saber?

-E podemos saber então qual?

-Claro pai, então lá vai: enquanto o Governo dorme profundamente, o Capital fode a Classe Trabalhadora. O Povo é completamente ignorado e o Futuro da Nação está na merda…”

publicado por McClaymore às 12:11
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Sábado, 4 de Junho de 2005

Elogio a uma mulher com “tomates”…

Há muitos anos atrás ouvi uma história sobre uma mulher que muito me intrigou. Essa mulher ao defender o património que lhe foi confiado, neste caso algumas jóias da coroa portuguesa, foi presa e maltratada pelas autoridades, num aeroporto brasileiro. Salva no último minuto, porque foi reconhecida numa fotografia de um jornal, junto ao Presidente Brasileiro, mas que não lhe evitaram umas quantas nódoas negras e algumas equimoses. Foram passando os anos e devido a um dos muitos cargos que ocupei, tive a honra de a conhecer.

Frontal, como aquela franja branca que lhe adornava a frente da cabeleira, política quanto baste, sempre assumiu as funções com uma coragem e uma determinação que conheço a poucos.

Mesmo não militando na mesma esfera política tenho que lhe reconhecer o valor, a atitude e a garra.

Um pequeno episódio demonstra bem a sua grande capacidade e espaço de manobra.

Depois de um almoço em que a comunidade feminina se encontrava em minoria, por acaso onde ela era a única representante, sentados no sofá de couro, na vetusta sala onde tomávamos o café e que pomposamente chamávamos de bar de Oficias, o General, empolgado pela assistência, começou a contar um episodio ainda recente e que lhe tinha deixado algumas marcas:

“-Estava eu a andar calmamente pela avenida, quando aquele filho da puta…”

O silêncio sepulcral refreou o General, nós, os outros oficias, que seguíamos atentamente a conversa, constrangidos, olhamos de soslaio para a figura feminina, que num trejeito banal, compôs a rebelde madeixa branca e sem perder o fio à meada, retorquiu no meio de um sorriso sincero:

“-Mulheres sérias não têm ouvidos…”

O General reanimado por tão corajosa assistência e por palavras de manifesta cortesia, depois de beberricar mais uma gota de café, continuou:

“-…e como eu ia dizendo, aquele cabrão…”

Aqui só nos restou assobiar para o ar e rezar para que a conversa não ultrapassasse as baias da linguagem até aqui utilizada…

Felizmente correu bem, dentro dos limites da decência, de vez em quando pontilhadas por algumas frases de caserna. A figura feminina ganhou pontos e granjeou a nossa admiração e estima.

Soube agora que a Dra. Simonetta Luz Afonso está a dirigir o Instituto Camões, mulher corajosa, sabendo de antemão as dificuldades sérias que esse marco da cultura está a passar por falta de apoio das nossas autoridades. E também porque, não obstante isso, foi o escolhido para receber um dos máximos galardões que os espanhóis têm para oferecer na área da cultura: o Prémio Príncipe das Astúrias. Mais ainda, quando estavam a ombrear com ele, outros seis e entre eles um que defende a cultura e a língua espanholas: o Cervantes.

A reacção da Simonetta mais uma vez demonstra bem porque é que ela está sempre nos lugares onde a peleja é mais dura: “Mais do que o dinheiro, é o reconhecimento da importância da língua portuguesa”.

Fazem falta muitas Simonettas, a este país onde a cultura não passa de uma palavra oca e onde ainda, já restam poucas vontades para lutar contra a inércia.

publicado por McClaymore às 00:53
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Sexta-feira, 3 de Junho de 2005

Nostalgias (?)

É o título que Francisco Sarsfield Cabral deu à coluna Tentar perceber, do DN, a interrogação é minha…

Ao analisar a diferença entre o antes e após euro (€), o autor compara e muito bem os benefícios entre o termos um tecto europeu onde nos inserimos e os mecanismos antes da adesão: a desvalorização da moeda e o aumento das taxas de juro.

Numa primeira leitura somos efectivamente levados a concordar com ele, as taxas de juro altas e os custos efectivos na conjuntura ante euro eram os mecanismos hipócritas que diminuam consideravelmente o poder de compra, diminuíam a inflação e regulavam as importações.

Num país que compra quase tudo fora e em que apenas produz o que transforma e pouco mais, a economia terá sobretudo apoio numa cultura de mão de obra barata, mas especializada.

Não foi isso que aconteceu e como ele volta a referir, o tecido empresarial português deu provas do seu grau de “despotismo iluminado”, apostou no mais fácil, e a especialização ficou pelo caminho.

Mas para além desta falta de visão mercantil, teríamos no governo um regulador que dentro de normas bem definidas, poderia e teve a oportunidade de virar essa tendência.

Não o fez, bem pelo contrário, incentivou, com os maus exemplos que deu, na compra de carrões, em vez de obrigar esses pseudo empresários a investir em modernização, formação e ao pagamento de impostos, mesmo quando ao abrigo de várias iniciativas comunitárias, houvesse verbas para tal.

As verbas entraram, mas serviram apenas para comprar mais Ferraris e alimentar egos, viagens de luxo e clientelismo fácil.

Dos empresários, posso falar, ouço com atenção histórias caricatas relativamente ao factor empreendedor que os norteia, para exemplificar conto um episódio que ouvi um dia, e garanto-vos que não é inventado, um empresário para começar a fazer negócio onde já estava instalado um concorrente resumiu a sua proposta às seguintes linhas:

“Exmo. Sr. Fulano de Tal,

Venho por este meio propor a Vossa Excelência que sobre os preços da empresa que opera actualmente convosco, eu faço 10% de desconto sobre todos os preços que eles vos levam.

Atentamente,

Zé Empresário”

Isto não é anedota, nem ficção, mas este exemplo de roleta russa, demonstra bem como se fazem negócios sem se saber se se ganha ou perde dinheiro.

Quem recebeu a proposta nunca disse os preços que lhe estavam a ser cobrados e teve o bom senso de arquivá-la, não sei se todos reagem da mesma maneira, mas acho que fica aqui um bom exemplo de como muitas empresas são geridas.

O problema maior é que esse mesmo estado que deveria dar o exemplo se transformou numa vaca gorda, que continua a consumir recursos sem objectivos. Os estudos não mentem, mais de metade dos serviços que o estado tem, são consumidos pelo próprio estado.

Os chamados parceiros sociais, os sindicatos, não estão isentos de culpas em vez de exigirem que se investisse na formação, escolheram a bandeira das remunerações, mais uma vez uma aposta no cavalo errado.

Deveriam, antes de se começarem a queixar das deslocalizações, para os países de leste, pegar no exemplo que eles nos deram. Precisaram de menos de 10 anos para se adaptar aos novos desafios e muitos deles já nos ultrapassaram em todos os campos. Portanto, lamento, mas caro Sarsfield Cabral, aqui não é uma questão de exercício de pura comparação, os mecanismos e as realidades eram bem piores que as nossas, a única diferença foi que os dirigentes, a classe empresarial, os trabalhadores e os sindicatos, desses países, compreenderam que na Europa, para mau exemplo chegava o nosso…

publicado por McClaymore às 15:42
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Quarta-feira, 1 de Junho de 2005

Mas ainda há poetas vivos…

Estes versos foram retirados da música “God shuffled his feet”, do álbum com o mesmo nome, de 1993, dos Crash Test Dummies:

 

“After seven days

He was quite tired, so God said:

“Let there be a day

Just for picnics, with wine and bread”

He gathered up some people he had made

Created blankets and laid back in the shade

 

The people sipped their wine

And what with God there, they asked him questions

Like: do you have to eat

Or get your hair cut in heaven?

And if your eye got poked in this life

Would it be waiting up heaven with your wife?

 

God shuffled his feet and glanced around of them:

The people cleared their throats and stared right back at him

 

So he said: “Once there was a boy

Who woke up with blue hair

To him it was a joy

Until he ran out into the warm air

He thought of how his friends would come to see;

And would they laugh, or had he got some strange disease?”

 

God shuffled his feet and glanced around of them:

The people cleared their throats and stared right back at him

 

The people sat waiting

Out on their blankets in the garden

But God said nothing

So someone asked him, “I beg your pardon:

I’m not quite clear about what you just spoke

Was that a parable, or a very subtle joke?”

 

God shuffled his feet and glanced around of them:

The people cleared their throats and stared right back at him."

publicado por McClaymore às 15:31
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Que me perdoem os poetas mortos...

Já me perguntaram muitas vezes porque é que dei um nome tão mórbido ao meu blog: qualquer macho latino que se preze, na procura da realização suprema, deverá plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro.

As duas primeiras metas já as cumpri, falta-me a última.

Ainda não o fiz por uma questão de puro egoísmo, um livro é sempre alguma coisa que extravasa todos os limites, é uma sombra que devemos deixar para distribuir com parcimónia, é também um legado sem testamento, mas que normalmente pode e deve influenciar muitas vidas.

Depois temos o tema, ficção, realidade ou pura paranóia, sinceramente eu prefiro não catalogar nada, as comparações épicas causam-me sempre constrangimento.

Não tenho também nenhum modelo a seguir, gosto de escrever sem sentido, o bom senso é um tempero que não deve ser utilizado na escrita.

Não gosto de redenções, gosto mais de remissões, de abjectas parábolas, de sonhos que um dia queremos cumprir.

Um livro é sempre alguma coisa que demonstra que alguns ainda conseguem perseguir ilusões, rirem-se das suas imagens no espelho e sentirem na pele o terror e a atracção pelos abismos.

O meu fiel cinismo também não se permite a criticas, portanto vou continuando lentamente a formar as palavras, depois as frases, cada capítulo e o epílogo, obras inacabadas e sem um fim convincente não me seduzem.

Entretanto e como é uma promessa que assumi, vou tentando arrumar ideias e ideais, inventar um título, rebuscar nos locais mais inóspitos da gaveta das recordações, os pequenos nadas que me vão ajudar na minha cruzada, pacientemente, sem pressas e sem amanhã, isto porque em qualquer momento ou acaso eu vou começar a retintar algumas páginas, qualquer dia antes de morrer…

 

P.S.: E se continuarem a insistir na pergunta porque é que dei este estúpido nome a um blog, leiam com atenção a justificação que o Pinto da Costa deu para dar aquele título ao livro dele…

publicado por McClaymore às 14:53
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