Domingo, 13 de Novembro de 2005

Crónicas de um Rei sem trono. (continuação IX)

Capítulo I 

 


A verdade é apenas aquilo que os nossos olhos querem ver…

Alguém consegue explicá-lo a um cego?

 

Os dois druidas, entreolharam-se e começaram por intentar desculpas que não saíram, o cavaleiro não lhes deu tempo para pensarem:

- Então? É a nossa vida que também está em causa, decidam-se depressa se nos querem ajudar, aqueles que aí vêm não vão esperar pelas vossas indecisões, Dormat!

- Que os deuses me perdoem por utilizar os seus conhecimentos a favor dos humanos, bem isto é um caso excepcional, vamos…

Virando-se os dois andrajosos clérigos, começaram a aumentar a passada, o bufarinheiro a puxar o seu burro renitente e o cavaleiro, seguiram-nos.

Percorreram um caminho quase invisível que torneava o bosque, olhando uma outra vez para ver se os vultos ao longe faziam tenções de os perseguirem.

A forma arredondada do bosque por uns tempos deixava antever que a turba longínqua os iria a qualquer momento deixar de ver.

Os guias estugaram os passos e dirigiram-se para um velho castanheiro que se destacava por entre a vegetação mais rasteira e espinhosa que protegia as bordas do bosque.

Aproximaram-se e ostensivamente, Dormat fez sinal aos seus seguidores que parassem, continuou depois passando para lá da grande árvore. Ouviram-se uns estranhos dizeres, cantarolados de uma forma rude mas ritmada.

Clarence sussurrou ao cavaleiro:

- É a linguagem dos antigos! Deve estar a fazer alguma feitiçaria para nos proteger dos nossos inimigos!

Passados uns segundos, Dormat assomou ao lado do castanheiro e fez então sinal para o seguirem.

Galomit, McClaymore, Clarence e Pedro passaram pelos arbustos, rodearam o castanheiro e desembocaram numa clareira.

No meio dela, uma cruz, igual às que tinham visto no seu caminho e dentro dos muros monumentais.

Da cruz uma luz, filtrada, de um tom azulado que se transformava num espelho, suspenso em estranha forma, ou como se fosse um bocado de água ondulante a cair ininterruptamente na vertical. Criava formas, embalava e reflectia imagens do bosque à sua volta. Hipnotizados os dois caminhantes aproximaram-se, Dormat fez-lhes sinal para entrarem naquela espécie de lagoa que se mantinha no ar como por magia.

O cavaleiro, embora sem temor, perguntou:

- Bom homem, desconfio que nos quer pregar alguma partida? Ou talvez nos queiras afogar?

- Rápido não tenho tempo para vos dar explicações sobre isto! Entrai rapidamente, Galomit, faz as honras, os nossos amigos assim deverão confiar nos nossos poderes, eu serei o último para fechar o portal. Entrem, estão perto…

O clérigo entrou, sem temor e desapareceu naquela parede que parecia engoli-lo lentamente. Desvaneceu-se como um fantasma no limbo.

Ainda com dúvidas quanto ao seu destino, o bufarinheiro, o asno e o cavaleiro seguiram-no, um a um.

Restou apenas Dormat que enquanto entrava entoava novamente um ladainha célere.

A parede como por magia, desapareceu, no seu lugar apenas a cruz, que deixava cair agora, na clareira a sua sombra, esvaziada de qualquer rasto.

publicado por McClaymore às 00:05
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1 comentário:
De Anónimo a 16 de Novembro de 2005 às 08:55
Realmente só vemos mesmo aquilo que queremos, o que não interessa camuflamos.
Adorei a tua passagem pela zara.inconfidente
(http://inconfidencias.blogs.sapo.pt)
(mailto:inconfidencias@sapo.pt)

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