Quinta-feira, 29 de Julho de 2004

"Brothers in Arms"

Estive durante muitos anos ligado às actividades castrenses, mais propriamente oito anos e uns meses. Sou filho e neto de militares, portanto um bom “curriculum” para secretário de estado da defesa, mas com pouca vontade de ingressar num ministério onde há muitos “amigos”. Mas não foi isso que me levou a escrever este post.

 

Estávamos quase a entrar no perímetro, a noite, bastante escura e sem lua era a ideal para cumprir a missão que nos haviam confiado. Avisei os meus homens que se preparassem para o assalto final. Nos rostos pintados de negro apenas o brilhar dos olhos demonstrava o acabar da missão. Aperrei a minha arma e preparei-me para dar o sinal para avançarmos. No acampamento “inimigo”, não se vislumbrava vivalma e as sentinelas que o guardavam já estavam para trás a alguns metros, teoricamente eliminados. Quando dei a ordem, por gestos, algo me disse que alguma coisa estava errada, mas mesmo assim, confiante, mandei continuar. Aos gritos irrompemos para o centro do acampamento. O “Bexigas”, a alcunha que demos ao nosso instrutor, já estava à nossa espera. Com um sorriso cínico deu-me o bote final:

“- A sua secção é uma merda, já estávamos à espera dela à muito tempo, foram todos eliminados, a sua missão vai ter pontuação zero. Podem ir comer qualquer coisa e depois podem ir dormir. Alvorada às sete. “Briefing” às oito com os chefes das outras secções. Pode mandar dispersar.”

Seco e eficaz, este “Bexigas”, nem me deu tempo de reclamar. Quem tinha sido o filho da mãe que nos tinha denunciado, eu tinha quase a certeza absoluta que o “inimigo” nem nos tinha visto. Em dado momento tinham passado dois tipos por nós, junto a um muro e um deles, ao mijar quase o tinha feito para cima de mim, quase me ia pisando e não me descobriu. Iria dormir e amanhã com um bocado de sorte saberia o que tinha feito falhar aquela “missão”. Avisei os meus colegas de tenda, digo camaradas, porque na nossa linguagem, colegas “são as putas” e amigos “os paneleiros”, o “KK”, diminutivo de “King Kong” e o “Modess” que teria que acordar às seis para ir dar um giro. Queria verificar o caminho que tinha feito até ao acampamento e saber o que me tinha traído. Às seis em ponto recebi uma cotovelada do “KK”, acordei de imediato e sorrateiramente saí do acampamento. Esgueirei-me pelos caminhos que evitavam as sentinelas, não estava com pachorra para dar explicações ao “Bexigas”, sobre o meu “desenfianço”. Andei ás voltas durante um bom bocado. Não descortinava nada que me levasse a imaginar como me tinham apanhado. Estava quase a desistir quando numa vala cheia de erva, descobri a pista que queria, um bocadinho de bolacha. Fiz o caminho inverso todo a imaginar o que ia fazer ao sacana do “Geleia”. Aquele corpinho com um metro e noventa, era difícil de alimentar, o estupor tinha de certeza enfiado um pacote de bolachas na mochila e tinha durante o percurso todo andado a encher o estômago. Ainda por cima descuidado, tinha deixado cair bocados, que o “Bexigas” devia ter descoberto e seguido. Estava a rir-se por dentro mas devia ser por pouco tempo. Quanto ao “Geleia” iria tratar-lhe pessoalmente da saúde, uma dieta era o ideal. Cheguei a tempo do “briefing”, onde fomos notificados que a “missão” iria ser repetida face aos maus resultados, pelo que às zero horas deveríamos ser deixados outra vez a três quilómetros do acampamento para a repetirmos. Lá fomos abandonados à nossa sorte, antes de começarmos a caminhada, e a pretexto da verificação do equipamento, mochilas, enchimento dos cantis, peças soltas nas armas e a bater, quando chegou a vez do “Geleia”, calmamente, abri-lhe a mochila que ele levava nas costas, retirei-lhe o pacote das bolachas que o animal escondia, tornei a fechá-la sem ele dar conta e fiz sinal à secção para avançarmos. A dieta forçada do “Geleia” tinha começado. Pelo caminho fui comendo bolachas e deixando migalhas, na esperança que mais uma vez o “Bexigas” seguisse o trilho. Quando nos estávamos a aproximar do acampamento, fiz sinal ao “KK” para me acompanhar e ao resto da secção, “Geleia” incluído, que se mantivessem sem se mexer, à minha espera. Foi aproveitando e espalhando mais bocados de bolacha. Fiz um desvio para as latrinas do acampamento. Eram umas quatro, retirei com o “KK” as lonas e os paus que as rodeavam. Começamos a apanhar ervas e enchemos os buracos mal cheirosos quase até ao cimo, mas sem acamar. No final e no seguimento do trilho que tinha deixado, “la piece de resistance”, uma bolacha inteira no meio de uma das latrinas. A parte final do meu plano, estava a compor-se, contava com a argucidade do “Bexigas” em apanhar as pistas deixadas por mim, para depois eu não desconfiar como me tinha descoberto. Voltei para junto dos meus rapazes, segui por outro caminho e esperei pacientemente que o “Bexigas” experimentasse na pele a minha armadilha. Não precisei de esperar muito, um vulto a correr, depois de umas asneiradas, largadas ao acaso, entrava no acampamento. Eu aproveitei a confusão que ele levantou para entrar triunfante com a minha secção toda atrás. O “Bexigas” ao amanhecer, depois de se ter desfeito da farda e das botas todas sujas e de um bom banho em água fria, chamou-me à parte e confidenciou-me:

“- Só ontem descobri porque lhe chamam “Brains”, está de parabéns.”

Estendeu-me a mão para um aperto, eu olhei desconfiado enquanto estendia a minha, ele com aquele sorriso malandro que eu tão bem conhecia, disse:

“- Esteja descansado já está lavada e desinfectada com álcool…”

 

Ao KK, Copo de 3, Fritz, Geleia, Calimero, Modess, Pintinhas, Jimmy, Sardinha, Peles, Catatau, Comanche, Soviético, Contraplacado e outros tantos irmãos de armas.

publicado por McClaymore às 18:26
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3 comentários:
De Anónimo a 29 de Julho de 2004 às 23:23
Convido-te a enviar a árvore genealógica para o Ministério do Portas. Pode haver uma vaga e lá surge a nomeação.af
(http://manuelino2004.blogs.sapo.pt)
(mailto:salfig@sapo.pt)
De Anónimo a 29 de Julho de 2004 às 23:16
sim senhor "brains"... gostava de ter visto a cara do bexigas :)! pelo que dizem estes são tempos e amizades inesquecíveis :)! um sorriso tartaruga
(http:aexplanada.blogs.sapo.pt)
(mailto:teresafilipa@sapo.pt)
De Anónimo a 29 de Julho de 2004 às 20:13
Pronto ! Já percebi que as "traquinices" não ficaram na infância :-))) Beijoinconformada
(http://palavrasapenas.blogs.sapo.pt)
(mailto:inconformada@sapo.pt)

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