Quinta-feira, 15 de Julho de 2004

Alea jacta est...

- Passam cinco minutos das oito, pode começar a servir o jantar.

Matemático, o relógio do meu avô acabava de ditar que quem se atrevesse a entrar na sala, depois de ele dar ordens para servir o jantar, o melhor era dar meia volta, contar com a generosidade da cozinheira e comer na copa.

Às vezes eu fazia de propósito, então quando a ementa não me agradava, limpinho, lá chegava eu atrasado. Não que eu gostasse muito de comer na copa, porque quem normalmente lá estava era a Marília, aquela do rabo grande, e aproveitava bem o meu anterior devaneio para se desforrar:

- Ou o menino come tudo ou eu vou fazer queixa ao seu Avô.

Normalmente referia-se às verduras e à sopa, eu engolia em seco, engolia as verduras e a sopa com os olhos fechados, enfrentar a fúria do meu avô por ter chegado atrasado, ainda aguentava, agora por não ter comido tudo, era melhor pensar duas vezes. Nem queria pensar no castigo que me poderia calhar. Desterrava-me de certeza para casa da mãe, a minha bisavó e podem crer se a Marília gostava de fazer a vida negra, a Esmeralda a criada da minha bisavó ainda gostava mais de mim, já lhe tinha feito umas quantas, já nem eu sabia quais. Não é que a casa, ficasse longe, na verdade ficava em frente à do meu avô, mas para além da Esmeralda eu tinha ainda que enfrentar os dentes dos dois “pequinois” que a minha bisavó adorava. Esses eram bem piores que a Marília e a Esmeralda juntas, partilhávamos um amor profundo entre nós, eu aproveitava cada distracção da dona para lhes dar uns valentes pontapés e eles retribuíam, quando eu estava distraído, com umas valentes ferroadas nas canelas. De vez em quando, lá conseguia livrar-me deles, antes de visitar a minha bisavó, tocava à campainha, abria a porta ligeiramente e sabendo de antemão que o “garoto” e o “lord” gostavam tanto de mim, mal me pressentiam, desatavam num berreiro e numa corrida para ver se me apanhavam.

Os “bichinhos”, de dentes arreganhados e com as ganas todas para me arrancar um bocado, mal viam a porta aberta, fugiam. Apareciam normalmente passados dois ou três dias quando do canil da Câmara, telefonavam a avisar para os irem buscar ao “hotel”, bastante escanzelados, todos sujos e depois de terem andado a tentar comer todas as cadelas com cio das redondezas. Também não deviam comer nada, mas disso eu não tinha culpa, tivessem umas perninhas maiores, e não obstante eu lhes dar oportunidade de uns devaneios sexuais, nunca me ficaram gratos por isso.

Depois de os soltar, eu aparecia meia hora mais tarde, para que a Esmeralda ou a minha bisavó não desconfiassem do pequeno favor que tinha feito às duas carpetes com patas.

Para piorar a minha triste sina, se o relógio do meu avô era mau, o da mãe era bem pior, era um relógio de cuco que quando soavam as oito, aqui não havia tolerância de cinco minutos, estava tramado, quem chegasse atrasado, normalmente comia só sopa, e guardado sempre pela cara de pau da Esmeralda, que na vida anterior devia ter pertencido à Gestapo. Apenas me livrei do maldito cuco, quando lhe enfiei um bocado de algodão no buraco, naquele dia comemos quase às nove, o raio do cuco não cantou.

Estava eu a pensar como é que eu mandava a Marília durante uns tempos para casa ou para a cama, quando me ocorreu uma ideia. Tinha recebido no Natal, um porta-aviões enorme, quase com um metro, com uns aviões que aterrava e descolava, como nas aventuras do “Major Alvega”.

O casco do porta-aviões era escuro, e virado para cima, assentava perfeitamente nos degraus das enormes escadas da casa do meu avô. Coloquei o belíssimo navio, perfeitamente camuflado num dos degraus e comecei a chamar pela criada:

- Marília, Marília, Mariíilia…

Tenho a impressão que exagerei, porque passados segundos, ouvi alguém a pisar o porta-aviões, uns berros e um bater de traseiro espectacular, que até a mim me doeu.

Quando me apresentei diante da figura que havia tropeçado na minha armadilha, decidi emigrar voluntariamente por quinze dias para casa da minha bisavó, quem havia caído na minha esparrela, não tinha sido a Marília, eu devia saber que o cu da Marília quando batesse no chão deveria ter feito mais barulho e também não devia ter levado aquele sorriso parvo nos lábios. Os cães, a Esmeralda, a minha bisavó e o cuco dela pareceram-me mais fáceis de enfrentar que a fúria da minha mãe com o rabo dorido.

 

P.S.: O porta-aviões foi abatido ao serviço, nunca mais o vi, julgo que foi fazer a felicidade de outro petiz, e eu também nunca perguntei qual, por motivos óbvios.

publicado por McClaymore às 00:55
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4 comentários:
De Anónimo a 16 de Julho de 2004 às 22:26
gostei logo do titulo do blog!Gostei muito do que li!Vou tornar-me cliente habitual:-)Obrigada pela visita!myryan
(http://myryan.blogs.sapo.pt/)
(mailto:myryan@sapo.pt)
De Anónimo a 16 de Julho de 2004 às 00:05
E que cenário perfeito para tanta traquinice (estava a ser simpática, pois "espetar" com a Marília no chão é mais sacanice que traquinice !) :-) Beijoinconformada
(http://palavrasapenas.blogs.sapo.pt)
(mailto:inconformada@sapo.pt)
De Anónimo a 15 de Julho de 2004 às 22:15
lol....gostei de vivir contigo nessa casa durante 5m...

beijinhos de doces recordacoespaula
(http://babkowsky.blogspot.com)
(mailto:pau68virgo@hotmail.com)
De Anónimo a 15 de Julho de 2004 às 14:54
:)... que casa deliciosa para passar férias... um avô rabugento e uma empregada sem comentários...! espectaclar este texto! :)tartaruga
(http://aexplanada.blogs.sapo.pt)
(mailto:teresafilipa@sapo.pt)

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