Segunda-feira, 12 de Julho de 2004

Desventuras.

Estava decidido, pela primeira vez a trupe dos quatro ia atacar. Os preparativos tinham que ser feitos com cuidado. Os bancos e as cadeiras que tínhamos que surripiar teriam que ser cuidadosamente transportadas e colocados sem que o alvo suspeitasse de nada. Treinávamos as mentiras mais inverosímeis, para que o planeado corresse na perfeição. Juramos ainda sobre uma revista do Tio Patinhas que de modo algum haveria traições e que ninguém tentaria tomar o lugar de ninguém. Previmos o nosso ataque depois do lanche. Ficávamos com cadeiras disponíveis, e para além disso evitávamos que fossemos apanhados com eventuais atrasos a refeições.

Claro que nada disto se tinha passado se nunca tivéssemos travado conhecimento com uma famosa autora, muito em voga na altura: Enid Blyton e as aventuras que descrevia nos seus livros dos cinco.

Após o lanche e com a desculpa que tinha que ir à casa de banho lavar as mãos, a Paula, a da minha idade, abriu silenciosamente a janela da casa de banho. Depois entrei eu para verificar se o trabalho da Paula estava em boas condições. Com o corrupio de vezes que fomos à casa de banho dava a qualquer adulto a oportunidade de notar que estávamos a preparar alguma, qualquer pessoa desconfia de miúdos com seis ou sete anos de idade a lavarem as mãos tantas vezes, mas a sorte protege os audazes.

Sub-repticiamente, lá fomos deslocando as cadeiras do seu lugar habitual para as traseiras que davam para a janela, se alguém nos apanhasse, já tínhamos delineado uma desculpa, íamos ficar ali a descansar um bocado. Uma desculpa como qualquer outra e perfeitamente idiota para que um adulto acreditasse nela.

Quando nos preparávamos para montar o nosso posto de observação, como já devem ter percebido, a casa de banho, mais propriamente a casa de banho das criadas, e já todos instaladinhos nas cadeiras, apareceu o Rui, o querubim da família. Não tínhamos contado com ele, nem com ele nem com o berreiro que ele fez para subir para uma cadeira e observar também pela janela onde nós estávamos a espreitar. Após uns minutos de conversação e como o nosso alvo ainda não tinha aparecido, deixamos que o fedelho ficasse sozinho a tomar conta das operações, na esperança que ele nos avisasse se a Marília, a empregada, lá entrasse.

Quando nos preparávamos para desistir, vimos o Rui completamente absorto e a exclamar altíssimo:

- Grande cu…

O resto da história é difícil de contar, e os castigos exemplares que recebemos também. O Rui, o único que teve direito, aquela visão fantástica, nunca conseguiu mesmo depois várias torturas e alguma persuasão, dar uma ideia do tamanho daquele rabo e depois dos avisos que recebemos sobre a nossa aproximação àquela janela, desistimos de olhar outra vez através dela, ou mesmo de ver o cu da Marília mesmo em sonhos. É verdade durante muito tempo foi a grande arma do Rui, ele tinha sido o único que tinha visto o rabo da Marília, e nós tínhamos pago por isso.

 

Para a Isabel, a Paula, a Teresa e o sortudo do Rui.

publicado por McClaymore às 22:55
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