Sábado, 10 de Julho de 2004

Auto da Barca.

Não era uma aula qualquer, era a aula de português. Acabei de desenhar o submarino, de lhe colocar umas bolinhas no lugar do periscópio e escrever a legenda: “Submarino sem tampa”.

Escapei a tempo, o professor, gordo e anafado, entrava a suar pela sala. A turma mista, enchia o ar de risinhos idiotas ao comparar o meu desenho com a calvície do mestre acabado de sentar o seu enorme traseiro na cadeira, que chiava com o seu peso.

Quando se voltou para escrevinhar o resumo da aula no quadro, roborizou-se, enquanto apressadamente desfazia a minha obra de arte, espumando de raiva interiormente.

Estávamos a dar Gil Vicente, a vulgaridade da linguagem, compunha o quadro final. Afinal estávamos naquele idade em que tudo é possível. Depois dos “virgos postiços” e das “arcas com feitiços”, caí na tentação de olhar de lado para a minha colega de carteira, mais propriamente de soslaio para as mamas da Isabel, que debruçada sobre o livro, ainda as fazia mais enaltecidas. Em vez de se envergonhar, ou de se compor, tomou uma atitude ainda mais provocante, enquanto sorria matreira. A minha grande língua não se conteve, mais rápido que o meu pensamento e em coro com a leitura do Gil, ouvi a minha voz dizer: “Grandes mamas”. O professor, imponente, arrastou-se até mim e inquiriu-me:

“Disse o quê, Senhor Aluno?”

“Grandes mamas, foi o que eu disse Sr. Professor.”

“Penso que não é o que está escrito nesse trecho que estamos a ler. Ou terá o Sr. Aluno um Auto de Gil Vicente que eu não li?”

“Bem, com o Gil Vicente tudo é possível, mas na verdade eu estava a referir-me às mamas da Isabel.”

A turma desta vez não se conteve e rebentou num riso descontrolado.

“Pois o Sr. Aluno terá que se retirar e apreciar os dotes femininos fora desta aula. Quanto à Menina Isabel, componha-se.”

Teatralmente, apontou-me a porta, eu arrumei os meus pertences, e dignamente dirigi-me para a saída. Julgo que desconfiou que tinha sido eu, quem lhe tinha desenhado a caricatura.

Claro nesse dia fui chamado ao Reitor, homem austero e seco que me avisou tolerantemente que não deveria repetir a gracinha.

Mas, eu é que não descansei. Imaginei sempre qual seria a melhor vingança para limpar a minha honra ultrajada por aquela humilhante expulsão.

Como bons estudantes, nas tardes de sábado solarengas, aproveitávamos o facto de não haver aulas, para estacionar no café, para lanchar ou ver as moças da cidade de província, pavonear-se com o último grito da moda. Nesse fatídico dia eu vi o Professor, sentado a tomar o seu chá, acompanhado pela esposa, que em gordura era a fotocópia do marido, animado e baboso enquanto embalava o filho ao colo, e encontrei a solução. Fiz sinal aos meus companheiros e testemunhas, levantei-me, passei pela mesa do alvo da minha vingança e cumprimentei:

“Boa tarde Senhor Padre, lindo filho, parecido com o pai.”

No café apenas se ouvia a ventoinha do tecto e a surdina da loiça na cozinha.

O homem totalmente avermelhado, ainda tentou passar o rebento para as mãos da esposa que não compreendeu imediatamente o boato que começara. Ainda tentou tartamudear uma desculpa, de que não era padre, tarde demais, o silêncio foi apenas entrecortado pela porta que acabava de bater.

Os meus comparsas, ainda vinham lívidos, assombrados pelo meu sangue frio, encontraram-me num banco de jardim, eu ria-me a bandeiras despregadas, mas imaginando o inferno que seria o próximo Auto de Gil Vicente.

publicado por McClaymore às 18:26
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