Terça-feira, 6 de Julho de 2004

O "Crítico".

Vestes negras, impecavelmente vincadas, uma camisa branca engomada, laço preto, ataviado e feito a rigor.

Jantava solitário na esplanada, acompanhado de um bife do lombo, mal passado, com uma só pitada de sal, regado por um Don Perignon à temperatura ideal, verificada matematicamente pelo termómetro que trazia no bolso, vertido num flute cristalino.

De repente saída do nada, sublime e implacável, apareceu a “Morte”. Tocou-lhe levemente no ombro esquerdo e gelou-lhe o coração.

- Com que então “Morte”, vieste para me levar?

- Sim “Crítico”, chegou finalmente a tua vez.

- Bem podias ter chegado antes, tinha evitado pagar a conta.

- Sempre a criticar, sempre a criticar, pelo menos não deste a gorjeta.

- Qual gorjeta? – replicou o “Crítico” – Com a falta de qualidade deste serviço, ainda me deviam pagar por ter vindo aqui jantar. E se por acaso não tivesse morrido, amanhã fazia uma crítica a este restaurante que pelo menos durante um mês deixariam de ter clientes. Já agora “Morte”, não te importas que eu leve a factura? É para meter no IRS.

- Para onde vais não precisas desses papéis, não tens que te preocupar mais com coisas mundanas.

- Nunca se sabe, nunca se sabe. A propósito “Morte”, podias ter vindo ter mais arranjadinha.

- Como?!?

- Pois essas vestes andrajosas, já estão um pouco “demodé”, as cores também não são as deste ano. E essa foice, podias ter mais cuidado com ela, está a ficar nitidamente enferrujada e gasta. Muito pouco profissional Sra. “Morte”, nem parece teu.

A “Morte” serena e prepotente indicou-lhe o caminho. Foi ouvindo o seu companheiro de viagem, ele criticava o tempo, ele criticava o percurso, ele criticou a “Morte”, quando esta parou numa farmácia de serviço para comprar um par de “Tampax”, para enfiar sorrateiramente nos ouvidos.

- Por onde me levas, já estou farto de andar, se tivesses virado à esquerda, já lá estávamos.

Mesmo com os tampões, a “Morte”, estava nitidamente a perder a compostura, a voz do “Crítico”, conseguia perfurar qualquer protecção conhecida, e a célebre "paciência" da "Morte", estava rapidamente a esgotar-se.

Finalmente, já sem forças para ouvir o seu interlocutor, chegaram ao seu destino.

A morte bateu três vezes e passado um bom bocado veio um diabo, feio, encornado e corcunda abrir a porta. Não sem que antes o “Crítico”, viperino, não tivesse reclamado pela demora e pela falta da campainha.

- Boa noite, disse o diabrete, quem trazes aí ó “Morte”?

- Desculpa não percebi, deixa-me tirar os “Tampax” dos ouvidos – disse a morte – importaste de repetir a pergunta?

- Eu perguntava quem é que trazias?

- É o “Crítico”, posso ir-me embora, estou um bocado atrasada para outro encontro, e com a pressa esqueci-me de comprar aspirinas, estou mesmo a precisar delas.

- Já agora – exclamou o “Crítico” – porque é que não perguntam pela família, pelo canário, porque é que não…

- Cala-te – disseram a “Morte” e o diabo em uníssono.

- Já sabes “Morte”, procedimentos da casa, tenho que ir buscar o rol dos pecados desse senhor e tens que ficar até ao final da sentença.

- Vejam lá se ainda tenho que tirar a senha e ir eu à procura do meu processo…

Os olhares furibundos que a “Morte” e o diabo lhe lançaram, foram suficientes para o “Crítico”, ficar calado durante uns minutos.

O diabrete, requebrado pelo peso do processo, ia caindo e espalhando no chão os volumes dos pecados do “Crítico”, após um esforço colossal lá conseguiu um espaço para os pousar.

- “Morte”, é melhor sentares-te um bocadinho, isto ainda vai demorar. E tu, “Crítico” não procures nenhuma cadeira, porque tens que ouvir aquilo que tenho para te dizer, em pé. Vamos então lá a começar: Primeira crítica, começaste logo pelo local, a hora, a data, o signo em que nasceste. Extraordinário. Já estava na massa do sangue. Depois com a hora da mamada, depois com o lado da mama. Coitada da senhora tua mãe…

- Porquê é que a minha mãe é para aqui chamada? – inquiriu o “Crítico” com as sobrancelhas arqueadas.

- Pois à tua custa, replicou o diabo, está no Purgatório.

- E então? Eu não vim para o Inferno.

- Pois, mas a tua mãe quando nasceste, lembraste, viu o monstro que estava em ti e tentou afogar-te?

- E depois?

- Depois, se não se tivesse arrependido, não tinha ido para o Purgatório, suspirou o diabo. Tinha ido directamente para o Céu…   

P.S.: Esta fábula é dedicada em exclusivo ao WOW. E como sabem, procedimentos da casa, existe livro de reclamações (É favor preencher os campos convenientemente para serem aceites)

publicado por McClaymore às 12:51
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