Sábado, 3 de Julho de 2004

Sombras do passado.

O menino encaixado nas escadas de pedra, olhava sobre a ruela, entremeada pelos muros das casas e do vinhedo, verde, muito verde, onde despontava o princípio do verão. Ouvia-se dentro da casa o matraquear manso dos sapatos da tia Alzira, atarefada nas lides de mais um dia passado. O sol a declinar lentamente, arrastava as suas sombras, por entre os beirais do telhado e os buracos do passadiço em madeira que atravessava a ruela. Lá ao longe nalguma igreja distante, já batiam as novenas ressoando intermitentes com o calor do fim de tarde. Vinda do fundo da ruela, apareceu a Carmelinda, carnes secas, nariz adunco e rosto talhado por um sofrimento calado, olhos escuros e brilhantes como noites de lua cheia, roupas cinzas e descoloridas de uma viuvez precoce.

Quando passou junto as escadas, o cuco, esse malandro, cantou, a tia Alzira espreitou pela porta escancarada ao cimo das escadas e ouviu a voz inocente do menino a dizer para a Carmelinda:

“- Pareces mesmo a mulher do cuco…”

A Carmelinda com uma expressão de terror no rosto, de espanto e agravo suplicou:

“- O menino não me chame isso, nunca me chame isso por favor.”

Tarde demais, a tia Alzira, junto à porta, num intervalo dos afazeres domésticos, ouviu, o tio Manuel, enxada ao ombro, que atravessava o passadiço vindo do lameiro, ouviu. No outro dia, nas semanas seguintes, não se falava de outra coisa, até o padre da aldeia comentava, a Carmelinda era a “mulher do cuco”.

O menino nunca compreendeu porque é que a partir daí a Carmelinda o evitava, porque é que quando o via se esgueirava sempre sem o encarar.

Um dia, o menino, já homem feito, descobriu que em alguns locais a “mulher do cuco”, é a bruxa da aldeia, significado que se perde na negrura dos tempos em que o homem ainda adorava as forças da natureza.

A Carmelinda, essa, ficou sempre a “mulher do cuco” até morrer, o menino nunca se perdoou, e há-de sempre, até ao fim da vida, ouvir a súplica da Carmelinda às palavras inocentes que proferiu naquele fim de tarde.

publicado por McClaymore às 18:56
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