Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2006

Nos bastidores da Guerra Fria...

Majeure cinquième (do Bridge)

 

O convite foi deixado na entrada, devidamente fechado e com a expressa ordem para me ser entregue em mão. A letra era inconfundível, não tinha qualquer razão plausível para o recusar, para além disso quem o assinava, dificilmente mandava convites: dava ordens.

Lá se tinham gorado os planos para um sábado mais ou menos morno, entremeado por umas idas ao café, um almoço em frente ao mar e uma sesta tardia.

Telefonei a combinar o local de encontro. A recepção seria ao meio-dia pelo que combinei com a minha "boleia" que o melhor era chegarmos um pouco mais cedo, pelo menos teríamos o direito de inaugurar o bar.

Do lado de lá um grunhido de satisfação e aquiescência. Depois um risinho surdo e uma pergunta cínica:

- Estavas a pensar dar uma desculpa para não ir?

- Sabes muito bem que assinou o convite! Se fosses tu tinha uma dúzia delas para te dar!

- Olha, não precisas de ir de fato. Só lá vai estar a família.

Bem pelo menos salvava-se isso, detestava os sábados em que me obrigavam a andar dentro de uma camisa com colarinho apertado, gravata, a suar às estopinhas, sem falar das conversas enfadonhas entre aperitivos e bebidas.

Acordei cedo, fiz a barba, escolhi descuidado a roupa: uma camisa azul, desportiva, um blazer azul, umas calças de sarja, sapatos pretos. Tomei um duche rápido, fiz a barba entre uma ária de fim-de-semana e uma voz de falsete estremunhada. Meti o roupão que tinha pedido emprestado ao Sheraton e resolutamente se tinha recusado a deixar a minha bagagem. Depois do Paco Rabbane e do after shave, entre uns impropérios trocados entredentes,  fui para cozinha. O aroma do café e das torradas deixaram-me por fim, mais bem-humorado e sem os últimos resquícios de sono.

Vesti-me calmamente pela casa, verifiquei se tinha tudo arrumado, descobri uma garrafa de um ano de Dão excepcional, que embrulhei resolutamente. Cheirava-me que ia beber cerveja e acabar em vodka. Ficava-me sempre bem alegrar o espírito do Yuri nem que fosse para ele guardar religiosamente aquele invólucro cheio de vinho para festejar um dia na sua terra, o de definitivamente ter-se livre da minha sombra.

Apanhou-me no local combinado, depois de eu ter passado por um pequeno centro comercial para comprar uma pequena lembrança para a personalidade que me tinha convidado.

O vermelho vivo, a alta cilindrada do carro, contrastavam com o mau gosto do Yuri pelas gravatas.

- Eu pensava que era informal! Vou ter ir comprar uma gravata?

- Se for preciso empresto-te uma das minhas.

A minha cara não lhe deixou muitas alternativas, não voltou a falar em gravatas e aceitou com um sorriso enorme o embrulho que lhe entregava. Levantou apenas uma pontinha para ver o que lhe tinha oferecido.

- Descansa, eu só vim assim porque tive que ir de urgência à Embaixada.

Más notícias, certamente as mesmas que me tinham evitado o despertador. Mantivemo-nos em silêncio o resto do trajecto.

Entrou com o carro pela garagem, arrumou-o e dirigimo-nos para elevador. Meteu as chaves, carregou para a subida.

Os dois gorilas como sempre no hall de entrada, a filtrar supostos penetras.

- Um dia destes devias substituir estes dois por duas hospedeiras de mini-saia!

Eles sorriram muito, como se lhes acabasse de mandar uns bons piropos.

- Isso queria eu, mas sabes o que é que me acontecia nesse dia, não sabes?

- Pois! As mesmas razões que me levaram a aceitar o convite.

Entramos. Mal acabávamos de ultrapassar as portas envidraçadas fui apertado num abraço e presenteado com um sonoro par de beijos.

- Sempre vieste! O Yuri disse-me que ainda não sabia se vinhas!?!

- Sabes que ele é um brincalhão Maminska - aproveitou para receber o embrulho que lhe dava.

- Ainda bem, tenho uma surpresa para ti! Mas vão tomar umas bebidas, o almoço é só à uma.

- Da! Nós vamos até ao bar.

Reparei que as jarras repletas de cravos brancos raiados de encarnado vivo, traziam na lembrança o cheiro de revoluções à muito concluídas.

- Não o deixes maçar-te com trabalho! Só pensa nisso. Já me vou juntar a vocês.

Viramos à esquerda, o corredor desembocava numa sala onde um criado vestido de branco, e por trás de um bar, se esforçava por mostrar trabalho numa sala vazia.

- O que bebes?

- Um martini on rocks! Diz-lhe que pode ser igual aos que o 007 pedia, e pode lá afogar também uma azeitona!

- Não consigo traduzir isso e ele não vai compreender a piada.

- Vê lá se começas a arranjar alguém que fale português, estou farto deste público que não se ri das minhas indirectas.

- Já sabes o que se passou?

A pergunta não precisava de qualquer resposta, ele conseguia ler nos meus olhos.

- Perdemos um parceiro para o bridge! Para além disso contava umas piadas racistas muito boas.

Ergui o meu martini contra o dele, rezamos uma prece e um elogio fúnebre sobre uma carreira prematuramente cerceada.

- Foi estúpido. Ninguém cometia aqueles erros todos. E agora quem é que convidamos?

- Podes sempre convidar o teu amigo, o da cor do teu carro, até dava jeito Yuri! Pelo menos ficávamos descansados quanto a possíveis armadilhas:

- Não devem te sido só eles, os da "casa azul" é que devem ter preparado isto!  

- Olha com a confusão que vai lá para baixo, já não meto as mãos ao fogo por ninguém, nem mesmo pelos meus Yuri!

- Eu não tenho nada a ver com isso e agora perdemos um parceiro! Os outros dois que sugeriste, são "persona no grata" por estes lados.

- Tens razão! Depois do que fizeram na tua terra. E esquecia-me do pormenor, o teu filho morreu a combater pelo exército deles.

- Vamos tomar mais um! Estás a abrir velhas feridas.

- Desculpa! Fala com o "Mac" ele que convide o "Bife" ou o "Eiffel", em último caso podes sempre convidar um neutro.

Mais uma rodada, desta vez o criado "surdo-mudo" abusou na vodka. Mais um bater de cristal.

- Quem? Mas quem podemos convidar?

- Olha o do "Barbudo" - sugeri. Esquecemo-nos dele, com a porrada que andam a levar por lá. Para além disso as armas que o outro ia comprar eram para os tipos que os estão a combater. Portanto se somarmos dois mais dois?!

- Já me tinha esquecido desses, sempre imprevisíveis! Tens razão, só podem ter sido eles, mas muita gente fechou os olhos.

A conversa esmoreceu, Maminska Rosae acabava de entrar de braço dado com uma das mulheres mais lindas que eu já tinha visto em toda a minha vida.

 

(continua)

publicado por McClaymore às 23:57
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