Sexta-feira, 2 de Setembro de 2005

Crónicas de um Rei sem trono. (continuação VI)

Capítulo I

 

As sombras do passado perseguem-nos até ao fim dos nossos dias.

 

O cavaleiro dirigiu-se lentamente para a fonte, a pedra era diferente da dos restantes edifícios. A sua alvura resplandecia e quase cegava em contraste com o tom ocre dos muros e das paredes. Encostado à ombreira da cornija da entrada do edifício onde iam tomar as refeições, Sir McClaymore, perscrutou o largo pátio para lá da fonte, deteve os olhos de vez em quando nos muretes, nas cimalhas e nos adobes carcomidos que se viam pelas frestas das janelas desgarradas. Aquele lugar não lhe agradava, era demasiado dentro dos muros, bem fundo e sem qualquer lugar de fuga. No entanto, conjecturou que dificilmente alguém se atreveria a entrar afoitamente dentro daquele labirinto, só se o conhece bem.

Dirigiu-se à fonte, desapertou um lenço negro que lhe envolvia o pescoço, molhou-o no tanque com movimentos rápidos, depois de o ter comprimido para lhe tirar a água em excesso, limpou cuidadosamente a fronte e o pescoço, desbotou o gibão em pele, primeiro os botões depois as fivelas laterais. Mirou-se nas águas que reflectiam a sua imagem, de vez em quando desfocada pelo caudal intermitente da fonte, a barba e os cabelos hirsutos, foram depois repassados também descuidadamente apenas para retirar algum pó do caminho que precisava urgentemente de ser limpo. Imaginou como seria bom tomar um bom banho para retirar a restante sujidade, mas isso teria que ficar para depois.

Preso nestes pensamentos foi acordado pelo seu companheiro que trazia uma braçada de madeiras velhas de portadas, soalhos ou janelas e alguns ramos e ervas secas.

- Como é que faziam os druidas desta casa para cozinharem e se aquecerem? Uma das coisas em que reparei, Clarence, é que não existem quaisquer árvores ou arbustos que sejam dignos de ser queimados dentro desta paredes.

- Pois não. Existiam algumas, mas foram destruídas pela seca e pelos homens que precisavam de queimar algumas coisas, mas eram pequenas e serviam apenas para dar alguma beleza ao lugar. Os monges iam buscar a lenha que queriam à mata em frente.

- Mas tu não disseste que era proibido entrar nela?

- Para nós mortais, senhor, os druidas entravam nela sempre que precisavam, inclusive diz-se que algumas das cerimónias e sacrifícios aos deuses eram lá feitos. Apenas eles se atreviam a entrar lá, segundo as leis deles se alguém fosse por eles apanhado a violar essa proibição, era banido e esconjurado, e podia mesmo receber um castigo exemplar. Nunca me lembro de tal, mas contava-se a história de um rei que um dia lá tentou entrar e que nunca mais voltou, o meu pai sabia o nome desse rei, mas eu já não sei essa parte da história. Talvez na minha aldeia haja ainda algum velho que se lembre.

Enquanto falava, Clarence foi-se aproximando de uma parede, deitou sem parcimónias o que levava nos braços e metodicamente de umas acendalhas que trazia numa bolsa a tiracolo, começou a fazer pequenas faíscas sobre a erva seca que tinha arrumado. Aos poucos e com um pouco de fumo começaram a surgir pequenas labaredas que ele com um sopro tratava de animar, quando elas se expandiram, pegou com ambas as mãos nesse montinho de erva e colocou-o debaixo das madeiras que tinha empilhado. Ateou-se lentamente uma pequena fogueira, quase sem fumo, a madeira estava bem seca por sinal. Depois, rebuscou nas tralhas que tinha retirado do burro e pegou num farnel embrulhado num trapo branco e numa caixa de madeira gordurosa. Do pano sacou um bom naco de pão, de côdea bem tostada e da caixa um naco de presunto avermelhado. Limpou o presunto do sal, pousou-o juntamente com o pão sobre o trapo, numa laje, que fazia de mesa. Depois desembaraçou-se do atilho do odre sobre o ombro e colocou-o ao lado das viandas.

- Eu sei que é pouca coisa, mas é partilhado com gratidão Senhor, pegai na vossa adaga e fazei as honras. Podeis repassar umas fatias deste presunto pelas brasas, ficará mais saboroso e libertará um pouco da gordura.

- Obrigado amigo, mas declino a primazia, divide tu a comida, a minha adaga tem outros fins, terás que utilizar a tua faca.

As sombras que caíram com aquele olhar demonstraram bem a pouca vontade daquela lâmina de se separar da sua bainha. A conversa esmoreceu e o bufarinheiro, começou a dividir rapidamente a refeição sem sequer levantar os olhos.

Cortou uns bons nacos de pão e sobre ele, umas fatias de presunto que metodicamente colocava no pano estendido. Deixou que o seu convidado se servisse.

O cavaleiro não se fez rogado, retirou um naco de pão coberto por um bom bife de presunto, começou logo a comê-lo, o bufarinheiro num gesto amável, entregou o odre já aberto ao cavaleiro, que sem cerimónias o levou à boca que depois de um ou dois goles o devolveu. Passou a mão pela boca, instintivamente para limpar um pingo mais teimoso.

- Bom néctar Clarence, tinhas razão, reconforta o espírito e vai ter o condão de nos animar para prosseguirmos a nossa viagem.

publicado por McClaymore às 14:47
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