Sexta-feira, 2 de Setembro de 2005

Crónicas de um Rei sem trono. (continuação IV)

Capítulo I

 

Outros são como fantasmas a vaguear na imensidão do limbo, a percorrer espaço e tempo à procura de um infinito que nunca alcançarão…

 

Os dois homens e os animais apressaram o passo, o sol agora mais quente, fazia correr gotas pelas faces dos viajantes e a pele do burro brilhava com o esforço. As ruínas, magestáticas, enormes pedras decalcadas e amontoadas pelos homens, imprimiam um tom de solenidade no meio do descampado que se estendia ao longe, entrecortado aqui e ali por pequenas arvores não maiores que um homem. À direita, a contrastar com esse semi deserto, um aglomerado cerrado de árvores velhas estendia o seu perímetro bem demarcado, como se de um forte se tratasse.

- Clarence, aquele mato ali não será mais conveniente para o nosso descanso, pelo menos será mais difícil de sermos surpreendidos ou encurralados do que dentro de quatro paredes.

O bufarinheiro empalideceu, murmurou uma prece surda e um pouco incomodado tartamudeou sussurrante:

- Senhor, não me é permitido frequentar esse bosque. Já no tempo dos que visitavam este lugar lhe era vedado entrar nos segredos desse denso matagal…

Antes que o cavaleiro tivesse tempo sequer de esboçar qualquer pergunta, o homem ainda trémulo informou:

- Os druidas proibiram qualquer homem de atravessar para além do perímetro de terra onde ele começa. Dizem que está protegido por magia muito forte e por estranhas criaturas que não temem ninguém. O meu velho pai contou-me que alguns mais afoitos o quiseram fazer e que nunca mais foram vistos. Eu não quero sofrer da mesma sorte e aconselho que façais o mesmo…

- Caro companheiro de viagem, forçado, mas mesmo assim meu companheiro. Não duvido das tuas palavras e não leves a mal a minha pergunta, apenas a curiosidade me levou a fazê-la. Mas deixemos o bosque em paz e os teus temores e alcancemos as ruínas, a minha fome é neste momento, bem pior do que os monstros que habitam aquelas árvores…

Dirigiram-se apressados para as sombras dos edifícios, o caminho aqui tinha sido tratado, e se bem que não estivesse habitado, por entre as perseverantes ervas que já enxameavam o local, estas dificilmente se desenvolviam no empedrado bem polido e bem assente que agora começavam a percorrer.

O musgo e algumas daninhas parasitas já começavam a tomar conta do lugar. As estruturas em madeira que sustentavam os telhados, que já não estavam lá, estavam carcomidas pelo sol e pela água da chuva.

Passaram uma estrutura enorme e sólida que se abria para um pátio interior. Os edifícios eram grandes e notava-se o cuidado na sua construção, fora feitas para enganar o tempo e lembrar aos homens a sua curta vida por entre estas vestutas paredes.

Aqui e ali ouviam-se os trinados das aves e os seus voos rápidos para apanhar algum insecto mais incauto.

O tapete de ervas não abafava o som ritmado do burro que rapidamente começou a percorrer aquelas lajes como se conhecesse o caminho de cor. Os dois homens acompanharam-no, ladeando paredes e passando por entre arcadas e pilares que separavam edifícios e algumas praças menores. De tempos a tempos uma aberura ainda com as portas de madeira, velhas, entreabertas e descaídas, davam um ar fantasmagórico e surreal aos espaços que percorriam, era como se ainda se sentisse o respirar dos monges que habitaram aquelas casas. O chiar das dos gonzos enferrujados das portadas, acentuava o tom lúgubre e imaginário daquelas pedras.

- O meu “Pedro”, já conhece estes lugares como ninguém. Quando ele parar, vou aliviá-lo da carga. Depois poderemos descansar uns minutos, beber e comer um pouco para retemperarmos as nossas forças. Ele sabe que mais no interior há uma fonte de água fresca. Será por aí que ficaremos, é abrigado e um local onde dificilmente seremos surpreendidos.

publicado por McClaymore às 14:01
link do post | favorito
Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

.mais sobre mim

.pesquisar

.Março 2006

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
16
17
18
19
20
21
22
23
24
26
27
28
29
30
31

.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.posts recentes

. Nova Casa…

. Nos bastidores da Guerra ...

. "Nada de novo na frente o...

. "Ladrão que rouba a ladrã...

. Crónicas de um Rei sem tr...

. Mãe, há só uma...

. Crónicas de um Rei sem tr...

. Crónicas de um Rei sem tr...

. Crónicas de um Rei sem tr...

. Crónicas de um Rei sem tr...

.arquivos

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Novembro 2005

. Setembro 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Março 2005

. Janeiro 2005

. Dezembro 2004

. Novembro 2004

. Outubro 2004

. Setembro 2004

. Agosto 2004

. Julho 2004

. Junho 2004

blogs SAPO

.subscrever feeds