Quinta-feira, 14 de Julho de 2005

Crónicas de um Rei sem trono (continuação)

Capítulo I

 

Da procura, nem sempre encontramos aquilo que queremos, é tudo uma questão de paciência, até que a solução nos venha para às mãos.

 

- Ninguém sabe como começou, mas ainda nos tempos dos antigos, quando eles mandavam por estas terras, começaram a chegar notícias sobre o que se passava para além das montanhas de Idich. Ao princípio eram notícias sobre um grupo de guerreiros nómadas que eram comandados por um chefe feroz. Por onde passavam, queimavam, pilhavam e violavam. As terras que iam conquistando eram logo tomadas pelos que os seguiam. Para cá das montanhas, nenhum senhor lhes deu a devida importância. Para conseguirem passar para o lado de cá ainda deveriam levar muitas eras, pensavam eles. O tamanho das montanhas e os seus abismos, também deveria ser um obstáculo e só quem soubesse o segredo da passagem é que se poderia atrever a percorrer os seus segredos. Não sabemos como, nem quem. Uns dizem que foi traição, outros que foi arrancada debaixo de tortura. Mas em suma, coisa é certa, à cerca de um ano, foram aparecendo grupos de guerreiros que se embrenham nas florestas, assaltam os viajantes e só uma boa escolta garante a segurança. Alguém ensinou o caminho aos Saurcans e aos poucos foram invadido estas terras. Dizem que são a guarda avançada dos que os esperam do lado de lá das montanhas e que só estão à espreita de uma boa oportunidade para se instalarem definitivamente. Por cá os grandes senhores não se entendem, continuam firmemente a guerrear-se entre eles, sem se importarem com o que se passa do lado de lá. A guarda avançada dos guerreiros tem feito muitos estragos, mas acho que os maiores são feitos pelos senhores que se guerreiam entre eles. A minha aldeia está nas terras do Senhor de Laertum, pagamos os nossos impostos, mas ele não nos garante as nossas vidas. Já não sei se é melhor viver sobre o jugo de estrangeiros do que viver a pagar com os nossos melhores homens, os nossos cereais, as nossas espadas e lanças. Muitos já se perguntam, se não seria preferível que os que aguardam do lado de lá para nos invadir, que o fizessem já. É terrível viver nesta situação. Os nossos recursos são cada vez mais escassos, o sal que levo no meu burro, seria bem mais barato e de melhor qualidade. Agora pagamos dez vezes mais do que pagaríamos à meses atrás.

O caminho foi-se alargando, a alameda frondosa foi substituída aos poucos por arvores mais baixas e mais esparsas, entravam agora num vale amplo cortado apenas ao longe por uma ponta de um rio que aparecia de vez em quando batido pelos raios de sol, que abrasavam cada vez mais. O caminho agora mais largo, era mais irregular e bem mais duro. Aos poucos, quando se aproximavam do rio, iam-se ouvido o grasnar dos patos. A paisagem expandia-se pelo horizonte, os sons dos sinos aos poucos foi ficando cada vez mais para trás, cada vez mais distantes.

- Clarence, sabes dizer-me porque repicavam os sinos com tanta intensidade?

- Não sei dizer Senhor, as gentes da ultima aldeia por onde passei, estavam agitadas e com ar de poucos amigos. Mesmo sendo uma visita regular, agora os senhores que a governam, os de Cahir, são inimigos de Laertum, pelo que mesmo eu, um inofensivo bufarinheiro sou considerado inimigo. Mas não é difícil de adivinhar a causa de tanta agitação, deveriam estar à espera de algum mensageiro e de recrutadores para os exércitos. Aqueles soldados que nos iam surpreendendo, deveriam pertencer à escolta. Estavam decerteza a vasculhar as redondezas para se certificarem que nenhum homem válido escapa aos seus deveres. Se nos tivessem encontrado certamente agora estávamos a fazer o caminho em direcção à aldeia e mesmo contra a nossa vontade iríamos preencher as fileiras de Cahir. Ainda não vos agradeci por isso. Mas aceitai as minhas sinceras desculpas e a minha gratidão. Os meus filhos e a minha mulher dificilmente me veriam tão depressa.

- Não precisas de me agradecer. Eu estaria nas mesma situação do que tu. A minha pele teria tanto valor do que a tua. A tua refeição e a tua ajuda a chegar á tua aldeia, são recompensas suficientes.

- Vou dizer ao Mestre Ollin para vos arranjar um cavalo e uma espada, pelo menos serão de melhor qualidade do que aquelas que ele normalmente vende a incautos.

- Obrigado, e o resto da tua história?

- Eu continuo, deixai-me tomar um pouco de fôlego. Estamos a aproximarmo-nos da curva do rio de onde poderemos ver a ponte que temos que atravessar, é já ali adiante, mesmo junto aqueles choupos.

Foram encurtando a distância, aos poucos sentia-se a humidade do rio e nas suas margens, começava-se a ouvir cantar das rãs que se escondiam no lodo e nos canaviais espessos. Uma garça, voava rente à água e fazia calar as rãs, ouvia-se o murmurar do rio, de vez em quando um tronco, tombado seguia na esteira da corrente, os ramos flácidos pareciam braços num último esforço para não serem submersos.

Lá ao longe a muita distância uma coluna de fumo, escura, eleva-se em espirais negras.

- Sarilhos ou desgraças – comentou Clarence.

- Sabes de onde vem, aquele fumo?

- Além só pode ser nas terras de Celtius, provavelmente um ataque de uma horda de Saurcans, por ali fica a aldeia de Marginus, mau prenúncio, mas fica longe da minha. Costumava ir lá com os meus pais. Começaram aí os meus dias de bufarinheiro. Quando chegarmos à minha aldeia, teremos notícias decerteza.

O ar ainda mais preocupado de Clarence, não de molde a deixar o cavaleiro descansado. Dificilmente se fossem atacados teriam com que se defender, a coragem, ou a falta dela, do homem do burro também não seriam de grande ajuda. A adaga, não serviria de grande coisa contra machados e espadas. Alargou o passo, ultrapassando o homem e o burro. Da trilha, por entre os choupos começava a vislumbrar-se a ponte, aquela distância parecia intacta. As traves de madeira que se entronavam no rio pelo menos assim pareciam. O restante, tirando aqui e ali uma falha, também parecia em bom estado. No entanto, parecia um bom sítio para se montar uma emboscada. Teriam que se aproximar com cuidado e arriscar. Mas antes o melhor seria fazer um reconhecimento prévio. Estava farto de surpresas desagradáveis.

publicado por McClaymore às 12:08
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