Domingo, 12 de Fevereiro de 2006

"Nada de novo na frente ocidental"

Finais de oitenta, o Muro acabaria por ruir, o monstruoso estrondo da sua queda, desafiaria a imaginação de qualquer um. O "Glanost" já estava em marcha à muito, a oriente.

Um telefonema rápido da embaixada, transmitido por uma secretária zelosa, marcava um almoço num local público, em que dois "inimigos" de longa data teriam direito a uma última refeição, juntos.

Pedi ao meu condutor que me deixasse na cidade, propositadamente longe, o ponto onde me apeei dar-me-ia espaço e tempo para perscrutar o ambiente. Tinha havido armadilhas montadas bem menos evidentes e velhos hábitos nunca se perdiam.  

O dia estava soalheiro, os pombos na baixa esvoaçavam, alimentando-se pelas mãos de uma velha sentada num banco, alguns deles, já empanturrados e cheios de calor, entravam sem temor na fonte que decorava a estátua ou nas poças de água que bebedouros mal fechados deixavam entornar.

Aquela maldita gravata estava a tornar-se um incómodo, mas tirá-la daria um aspecto mais desmazelado do que eu pretendia.

Olhei o relógio, distraidamente, ainda faltavam uns bons dez minutos para a hora do encontro.

Entraríamos os dois ao mesmo tempo, fazia parte da boa educação, demonstraria que ninguém estava à espera de ninguém. Que não tinha havido tempo de armadilhar o local.

Alinhei na calçada propositadamente do lado esquerdo, teoricamente ele apareceria por uma das ruelas transversais.

Na primeira nada, um garoto apenas a correr. Um homem com umas malas mais ao fundo.

A próxima seria a evidente, larga com esplanadas laterais, dar-me-ia tempo para tudo.

Ele apareceu, sorridente, cabelos brancos, mais alquebrado do que o habitual, o levantar do braço, serviu para nos reunirmos e simultaneamente dispensar os dois gorilas que o seguiam. Pensei com os meus botões o Yuri estava a perder faculdades, há muito que lhe conseguia adivinhar os passos. Enquanto dávamos um aperto de mão caloroso e demorado, ele sabia que eu detestava beijos, os dois brutamontes acabaram por se sumir à direita, pelo passeio que torneava a praça.

Entramos no restaurante, como dois amigos que fossem comemorar um velho acontecimento.

Menos frugal que o habitual, mais eufórico encomendou lagosta e champanhe. Eu aceitei a sugestão.

A meio da refeição, ocupávamos uma mesa discreta mas onde poderíamos vigiar as entradas, ambos demos conta de um estranho personagem. Ao princípio nem se dava por ele, depois com uma rapidez enorme, saca de uma máquina fotográfica e começou por tirar fotografias pelas mesas. Sempre o mesmo ritual, uma foto, a entrega de um cartão e muitos salamaleques!

Quando se aproximou da nossa, o Yuri nem pestanejou, aceitou prontamente que lhe pedissem para sorrir e fez-me sinal para eu fazer o mesmo. Depois quando o fotógrafo se aproximou para lhe dar o cartão, pegou numa nota de mil escudos, sacou de um cartão da embaixada e pediu que o homem lhe enviasse duas cópias.

Confesso que o incidente me deixou sem apetite e declinei com ar de poucos amigos a sobremesa.

Enquanto não vinham os cafés, o Yuri desconcertou-me com uma enorme gargalhada.

- Estás preocupado com o quê? Fica descansado eu sei que não foste tu que o mandaste vir cá! Mas garanto-te também que não fui eu!

- Meu caro Coronel - eu gostava de o tratar assim quando o queria irritar - eu não fui, disso tenho a certeza. Mas qual foi a ideia de lhe dar um cartão com a sua identificação e mil escudos?

Aí o sorriso do meu velho "inimigo" rasgou-se quase num engasgo e rematou:

- Está descansado, a mensagem foi passada: a nota de mil era falsa...

Confesso que não recusei o digestivo bem aviado, que me puseram à frente quando o meu parceiro de almoço o encomendou ao ver a minha cara.

 

In memória de um velho espião que veio do leste e se perdeu nas brumas da "Guerra Fria".

publicado por McClaymore às 18:20
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3 comentários:
De Anónimo a 27 de Fevereiro de 2006 às 00:31
Obrigado pela sugestão de leitura que me deixaste há alguns dias lá no meu blog. Fui lá ler o post (texto), e gostei muito. Mais uma vez obrigado pela partilha. Abraço.Art Of Love
(http://artofloveabout.blogspot.com/)
(mailto:bizaazul@iol.pt)
De Anónimo a 15 de Fevereiro de 2006 às 14:32
Eu nunca me esqueço das tuas letras, apenas não tenho net em casa, e no trabalho nem sempre a posso usar...lol
Continuas a escrever lindamente...lol
um beijo...elisa...
(http://oserintemporal.blogspot.com)
(mailto:ecsgl@msn.com)
De Anónimo a 13 de Fevereiro de 2006 às 03:00
JornaldeNotícias, Domingo, 29 de Janeiro de 2006 http://jn.sapo.pt/2006/01/29/cultura/juntar_pecas.html
Margarida Rebelo Pinto:

"Quase nunca te digo o que sinto por ti porque te conheço bem, minha querida Mariazinha."

Art of Love, 7 de Fevereiro de 2006 http://bizaazul.blogspot.com/

"Quase nunca te digo o que sinto por ti porque te conheço..."margarida
(http://bizaazul.blogspot.com/)
(mailto:margarida@gmail.com)

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