Quarta-feira, 15 de Junho de 2005

Até sempre camaradas…

Não tenho um amor especial por ideologias que usurpam as vontades e as iniciativas dos outros ao abrigo de uma repartição de benesses que para alguns, mesmo com as oportunidades que lhes dão, não as querem agarrar…

Nas mentes desses eu sou um perigoso reaccionário, sempre fui, nunca escondi que para mim a equitatividade, é a repartição de trabalho, não de riqueza, ao contrário do que muitos defendem.

Por essas e por outras é que nunca acreditei em comunismos nem em pseudo partidos cuja finalidade era dar aos pobres, de espírito, aquilo que eles não conseguiam roubar de outra maneira.

A colectivização cheira-me a desajustes de libido ou de problemas de consciência mal resolvidos. A homogeneidade gregária tem como contraponto os direitos individuais de cada um, pelo que os partidos que defendem o comunismo, entram em contradição quando se arrogam os únicos defensores de uma liberdade que nunca abdicarão de controlar.

Vimos isso acontecer neste País, a tentativa de arrebanhar todos os direitos dos cidadãos e infelizmente continua.

Em 1975, num frente a frente entre o Dr. Mário Soares e o Dr. Álvaro Cunhal, defendia o ultimo que o PPD do Dr. Sá Carneiro, não podia estar representado no Governo. Enquanto que o Dr. Mário Soares contrapunha que sendo esse partido ainda mais votado do que o do Dr. Álvaro Cunhal, como seria possível exclui-lo da sua representatividade.

Dois dos defensores do paradigmático caminho para o socialismo deixaram-nos: o General Vasco Gonçalves e o Dr. Álvaro Cunhal.

Cada um deles à sua maneira defendia aquilo em que acreditava. Não é sem razão que o Dr. Marcelo Caetano elogiava o Dr. Álvaro Cunhal considerando-o o único político coerente deste País.

Nunca privei com o Dr. Álvaro Cunhal e apenas tenho na memória um episódio que ainda hoje me faz rir.

Princípios de 90, um dia daqueles que apetece que comece de novo. Tudo estava correr mal. Desde o colega a avisar que estava doente e que não poderia acompanhar-me à auditoria, até ao taxista que não sabia as ruas de Lisboa. Decididamente deveria ter ficado em casa também. Para cúmulo, a empresa era uma comparticipada da multinacional para quem eu trabalhava e tinha-se mudado para um edifício ainda em acabamentos.

A rua ainda poeirenta, começava num largo e nem se via vivalma. Deixei o taxista atarantado, a resmungar pela falta de gorjeta, e saí apressado, a contar os minutos de atraso. Olhei para o post-it que a minha secretária me tinha escrito e meio confuso dirigi-me para uma porta envidraçada de onde alguns vultos se aproximavam para sair.

Ao primeiro que apanhei, mesmo à entrada, soletrei as letras escritas no amarelo e perguntei ansioso:

“- Boa tarde, por acaso não sabe dizer-me onde fica o Edifício América?”

A figura cinicamente sorridente, respondeu:

“- Infelizmente não lhe posso dar essa informação…”

Depois fui literalmente afastado do senhor, por dois gorilas de má cara, não liguei, o meu relógio indicava que já passava nitidamente da hora…

Fui percorrendo a galeria e encontrei o maldito edifício, as letras douradas sobre a porta não enganavam ninguém.

Enquanto o segurança me preenchia um papelito de entrada, fez-se luz! E comecei a rir-me desalmadamente: tinha à minutos atrás, perguntado ao Álvaro Cunhal, em carne e osso, onde ficava “o Edifício América”. Daí o sorriso cínico e a pressa dos gorilas em afastar-me. Depois deste encontro, deveria ter mesmo anulado a maldita auditoria, Deus tinha-me enviado um sinal…

 

 


In memória dos que lutam por aquilo em que acreditam.

publicado por McClaymore às 15:12
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