Sábado, 4 de Junho de 2005

Elogio a uma mulher com “tomates”…

Há muitos anos atrás ouvi uma história sobre uma mulher que muito me intrigou. Essa mulher ao defender o património que lhe foi confiado, neste caso algumas jóias da coroa portuguesa, foi presa e maltratada pelas autoridades, num aeroporto brasileiro. Salva no último minuto, porque foi reconhecida numa fotografia de um jornal, junto ao Presidente Brasileiro, mas que não lhe evitaram umas quantas nódoas negras e algumas equimoses. Foram passando os anos e devido a um dos muitos cargos que ocupei, tive a honra de a conhecer.

Frontal, como aquela franja branca que lhe adornava a frente da cabeleira, política quanto baste, sempre assumiu as funções com uma coragem e uma determinação que conheço a poucos.

Mesmo não militando na mesma esfera política tenho que lhe reconhecer o valor, a atitude e a garra.

Um pequeno episódio demonstra bem a sua grande capacidade e espaço de manobra.

Depois de um almoço em que a comunidade feminina se encontrava em minoria, por acaso onde ela era a única representante, sentados no sofá de couro, na vetusta sala onde tomávamos o café e que pomposamente chamávamos de bar de Oficias, o General, empolgado pela assistência, começou a contar um episodio ainda recente e que lhe tinha deixado algumas marcas:

“-Estava eu a andar calmamente pela avenida, quando aquele filho da puta…”

O silêncio sepulcral refreou o General, nós, os outros oficias, que seguíamos atentamente a conversa, constrangidos, olhamos de soslaio para a figura feminina, que num trejeito banal, compôs a rebelde madeixa branca e sem perder o fio à meada, retorquiu no meio de um sorriso sincero:

“-Mulheres sérias não têm ouvidos…”

O General reanimado por tão corajosa assistência e por palavras de manifesta cortesia, depois de beberricar mais uma gota de café, continuou:

“-…e como eu ia dizendo, aquele cabrão…”

Aqui só nos restou assobiar para o ar e rezar para que a conversa não ultrapassasse as baias da linguagem até aqui utilizada…

Felizmente correu bem, dentro dos limites da decência, de vez em quando pontilhadas por algumas frases de caserna. A figura feminina ganhou pontos e granjeou a nossa admiração e estima.

Soube agora que a Dra. Simonetta Luz Afonso está a dirigir o Instituto Camões, mulher corajosa, sabendo de antemão as dificuldades sérias que esse marco da cultura está a passar por falta de apoio das nossas autoridades. E também porque, não obstante isso, foi o escolhido para receber um dos máximos galardões que os espanhóis têm para oferecer na área da cultura: o Prémio Príncipe das Astúrias. Mais ainda, quando estavam a ombrear com ele, outros seis e entre eles um que defende a cultura e a língua espanholas: o Cervantes.

A reacção da Simonetta mais uma vez demonstra bem porque é que ela está sempre nos lugares onde a peleja é mais dura: “Mais do que o dinheiro, é o reconhecimento da importância da língua portuguesa”.

Fazem falta muitas Simonettas, a este país onde a cultura não passa de uma palavra oca e onde ainda, já restam poucas vontades para lutar contra a inércia.

publicado por McClaymore às 00:53
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