Sexta-feira, 3 de Junho de 2005

Nostalgias (?)

É o título que Francisco Sarsfield Cabral deu à coluna Tentar perceber, do DN, a interrogação é minha…

Ao analisar a diferença entre o antes e após euro (€), o autor compara e muito bem os benefícios entre o termos um tecto europeu onde nos inserimos e os mecanismos antes da adesão: a desvalorização da moeda e o aumento das taxas de juro.

Numa primeira leitura somos efectivamente levados a concordar com ele, as taxas de juro altas e os custos efectivos na conjuntura ante euro eram os mecanismos hipócritas que diminuam consideravelmente o poder de compra, diminuíam a inflação e regulavam as importações.

Num país que compra quase tudo fora e em que apenas produz o que transforma e pouco mais, a economia terá sobretudo apoio numa cultura de mão de obra barata, mas especializada.

Não foi isso que aconteceu e como ele volta a referir, o tecido empresarial português deu provas do seu grau de “despotismo iluminado”, apostou no mais fácil, e a especialização ficou pelo caminho.

Mas para além desta falta de visão mercantil, teríamos no governo um regulador que dentro de normas bem definidas, poderia e teve a oportunidade de virar essa tendência.

Não o fez, bem pelo contrário, incentivou, com os maus exemplos que deu, na compra de carrões, em vez de obrigar esses pseudo empresários a investir em modernização, formação e ao pagamento de impostos, mesmo quando ao abrigo de várias iniciativas comunitárias, houvesse verbas para tal.

As verbas entraram, mas serviram apenas para comprar mais Ferraris e alimentar egos, viagens de luxo e clientelismo fácil.

Dos empresários, posso falar, ouço com atenção histórias caricatas relativamente ao factor empreendedor que os norteia, para exemplificar conto um episódio que ouvi um dia, e garanto-vos que não é inventado, um empresário para começar a fazer negócio onde já estava instalado um concorrente resumiu a sua proposta às seguintes linhas:

“Exmo. Sr. Fulano de Tal,

Venho por este meio propor a Vossa Excelência que sobre os preços da empresa que opera actualmente convosco, eu faço 10% de desconto sobre todos os preços que eles vos levam.

Atentamente,

Zé Empresário”

Isto não é anedota, nem ficção, mas este exemplo de roleta russa, demonstra bem como se fazem negócios sem se saber se se ganha ou perde dinheiro.

Quem recebeu a proposta nunca disse os preços que lhe estavam a ser cobrados e teve o bom senso de arquivá-la, não sei se todos reagem da mesma maneira, mas acho que fica aqui um bom exemplo de como muitas empresas são geridas.

O problema maior é que esse mesmo estado que deveria dar o exemplo se transformou numa vaca gorda, que continua a consumir recursos sem objectivos. Os estudos não mentem, mais de metade dos serviços que o estado tem, são consumidos pelo próprio estado.

Os chamados parceiros sociais, os sindicatos, não estão isentos de culpas em vez de exigirem que se investisse na formação, escolheram a bandeira das remunerações, mais uma vez uma aposta no cavalo errado.

Deveriam, antes de se começarem a queixar das deslocalizações, para os países de leste, pegar no exemplo que eles nos deram. Precisaram de menos de 10 anos para se adaptar aos novos desafios e muitos deles já nos ultrapassaram em todos os campos. Portanto, lamento, mas caro Sarsfield Cabral, aqui não é uma questão de exercício de pura comparação, os mecanismos e as realidades eram bem piores que as nossas, a única diferença foi que os dirigentes, a classe empresarial, os trabalhadores e os sindicatos, desses países, compreenderam que na Europa, para mau exemplo chegava o nosso…

publicado por McClaymore às 15:42
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